O movimento imaginário nos frutos de cor de Iracema Barbosa

Em uma estrutura artesanal, feita de madeira e fitas coloridas, Iracema Barbosa conseguiu tecer com leveza o movimento imaginário das memórias coloridas brasileiras. Bois de Carnaval e Frutos de cor são dois desdobramentos de um trabalho artístico dela, apresentados em 2003 e 2005, em Paris e na capela de Saint Gildas em Bretagne, ambos na França. Essas obras nasceram em Bois de Vincennes, um bosque ao sul de Paris, onde ficava o ateliê da artista.

Iracema Barbosa, Bois de carnaval, madeira e linhas, 2003.

Neste trabalho, a artista criou essa série de estruturas verticais em um processo artesanal de coleta de gravetos, galhos e madeiras, e com a incapacidade de pregar, colar e encaixá-los, começou a usar fitas coloridas de cetim que tinha ganhado de herança de sua avó.

Nesta obra, a artista subverte a lógica tradicional de utilização da linha e da madeira, colocando a linha como estruturante, o agente que sustenta, segura e apoia, e a madeira como o objeto carregado, ancorado ou suportado. Essa desobediência estética criada pela artista desafia a opinião e a crença ordinária sobre a função e utilização da linha e da madeira, como consequência as cores das linhas sustentam o movimento imaginário com leveza e suavidade.

Essas mesmas fitas coloridas, podem carregar consigo irremediavelmente a síntese das memórias das festas populares brasileiras, como a do senhor do bomfim em Salvador, na Bahia, ou o tradicional carnaval de rua com o frevo de Olinda em Pernambuco, das escolas de Samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, além das festas juninas nordestinas, e das tradições do norte como o boi bumbá, associadas à essa memória nacional.

Iracema Barbosa, Bois de carnaval, madeira e linhas, 2003.

Além do espaço e a luz nesse trabalho desempenham funções especiais, como as estruturas são horizontais, a altura do espaço de exposição é de fundamental importância para o preenchimento da sensação do movimento imaginário, além da incidência de luz ser outro aspecto, que cria uma leve desfiguração da estrutura entre os espaços iluminados e os apagados, oferecendo expansão à obra.

Até aqui já teríamos uma interessante narrativa sobre a relação entre coleta de madeiras em um bosque na França por uma artista brasileira e o ato de “costurá-las” com memórias de casa, mas, a artista vai além, cria o movimento imaginário com suas memórias, lembranças e recordações das festas populares brasileiras.

Sabemos que as fitas eram de sua avó, porém, saindo do aspecto particular da artista e ampliando o campo de investigação artística, o que essas fitas coloridas representam?

Iracema Barbosa, Bois de carnaval, madeira e linhas, 2003.

Iracema Barbosa apresentou pela primeira vez essa obra em 2003, utilizando de sua experiência artística sobre o estudo da cor, seja pela sua formação de 1987 à 1991, quando fazia parte da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, enquanto era assistente do pintor neoconcreto Aluísio Carvão.

Esse estudo da cor aqui recuperado em Bois de Carnaval e Frutos de cor, desenvolvido em uma instalação pictórica, evidencia como a artista incorporou em suas poéticas o estudo contemporâneo da cor, essas cores que auxiliam a artista na criação desse movimento imaginário.

Mas, que movimento é esse que a artista cria? em suas linhas de fitas e madeiras depois de presas, assim como qualquer experimento em física em contato com o atrito do ar, encontra sua harmonia, seu equilíbrio e fixa-se. Então se a obra não está se movimentando, de onde vem esse movimento, dito aqui imaginário?

Iracema Barbosa, Bois de carnaval, madeira e linhas, 2003.

Esse movimento é criado a partir do nosso olhar, diante de nossas memórias, das festas populares que já participamos e para onde Iracema Barbosa nos leva. O estudo contemporâneo da cor que Iracema Brabosa faz em Frutos de Cor, nos leva para o movimento imaginário das festas populares brasileiras, resgatando memórias e expandindo nossa imaginação.