Manda quem pode, obedece quem quer

Certa vez voltando do trabalho de trem, na estação de Cascadura, aconteceu um fato conhecido de quem costuma usar a Supervia: O trem ficou parado mais tempo do que deveria na estação.

Mas dessa vez não se trata de um problema na comunicação da malha ferroviária ou de algum problema na parte mecânica do trem. Havia um ou mais indivíduos em outro vagão segurando a porta e o trem não poderia seguir viagem dessa forma.

Nesse momento, um fiscal da Supervia que estava na estação brada da plataforma com um tom firme: “ Larga essa porta ai, mermão!”

O rapaz que segurava a porta não cumpri a ordem, e então o fiscal fala, no mesmo tom e com autoridade: “Larga a porta parceiro, vou ter que ir ai?”

Após a pergunta retórica, as portas se fecham e o trem parte seguindo seu destino.

A partir dessa cena que presenciei, vendo apenas o fiscal que se impôs pela força da palavra, comecei a refletir sobre como as autoridades são encaradas na nossa cultura.

Muitas vezes eu e você somos o rapaz que segura a porta do trem. Vivemos num mundo de desobediência sem qualquer propósito.

Sim, porque há bons propósitos para se desobedecer autoridades/leis. Um governo autoritário ou ditatorial não só pode como deve ser desobedecido. Leis injustas devem ser rechaçadas pelo povo.

O nosso problema é considerarmos toda regra e, consequentemente, toda autoridade como uma força opressora que restringe a liberdade alheia. Mas esse pensamento ignora o fato de que a liberdade precisa de restrições para que a convivência em sociedade não se torne o caos completo e são justamente as autoridades, que serão as responsáveis por operar essa restrição.

Desde o fiscal da supervia, passando pela Polícia, o pastor/padre, o seu chefe no trabalho, o prefeito da cidade e o presidente da república, o ser humano tem dificuldade de respeitar as autoridades que governam cada esfera da vida. Há um impulso de rebeldia e desejo por autonomia em cada um de nós.

Isso se manifesta de modo mais grave quando o homem se revolta contra a autoridade última, a única que de fato tem poder absoluto: O Criador. Para muitos Deus é a figura daquele pai chato que quer te impedir de aproveitar o melhor da vida com regras chatas e caducas. Nada mais falso

A autoridade do Criador é de onde provém todas as demais. Toda ordem que o ser humano precisa, inclusive para estar vivo e ter a oportunidade de se rebelar, vem dEle. Toda atitude de desobediência ilógica tem origem nessa revolta dentro do coração do homem.

Se é proveitoso que não obedeçamos regras burras (e longe de mim recomendar obediência cega a qualquer coisa) também é necessário que tenhamos uma atitude crítica em relação ao ato de desobedecer. Caso contrário seremos como rebeldes sem causa repetindo o lema hippie “É proibido proibir”.

Por isso, não seja o rapaz do trem. Certas desobediências mais do que nos fazer parecer o cara que pensa “fora da caixa”, passam pras pessoas que somos crianças pirrancentas buscando atenção.