João Liberdade — primeiro ato
João acordou com sede naquela noite, os sonhos confusos e animalescos haviam secado sua garganta e precisava de água para molhar o bico. Levantou ainda meio zonzo de sono e foi cambaleante até a cozinha improvisada do barraco em que vivia mas, a cumbuca estava vazia.
“Que ótimo”— resmungou.
Saiu com a cabaça em mãos, catou um chinelo velho e foi em meio a noite escura buscar água. Conhecia bem o caminho já que vivia ali quase a vida toda. A mãe era uma negra fugida e ele, filho dos tempos do ventre livre, só sabia que liberdade era o nome dado a ele. João Liberdade. A mãe havia sonhado com esse nome — sonhado com Liberdade — e embora tenha conseguido aproveitar pouco tempo esse sentimento, procurou ensinar a João tudo que sabia, de cozinha à adivinhações e remédios.
A noite estava estranhamento quente, o vento que corria trazia um perfume de madeira fresca, mas a mente de João não parava de trabalhar. Aquele último sonho o havia deixado encucado. “Onde já se viu, não basta trabalhar o dia todo, de noite ainda a cabeça quer que a gente vire bicho”, porém logo se arrependeu daquele pensamento, um frio subiu por sua espinha e deixou-lhe a pele toda arrepiada. Tinha coisa estranha ali.
Desconfiado, reduziu o passo e, arrependido de ter saído sem um lampião, procurou firmar os olhos e afinar a escuta, “ao menos é noite de lua cheia” pensou. Contudo quando foi se chegando perto da vertente viu algo que o fez arrepiar-se todo: havia algo meio caído dentro da vertente, o corpo parecia um pouco grande e estranhamente peludo demais para ser humano mas, o jeito com que buscava beber água era o mesmo que de qualquer outra pessoa.
Escondido entre as folhas, João não conseguia mexer as pernas — o medo havia lhe paralisado — mas foi a constatação que aquilo estava sendo igual ao sonho que havia tido antes que o fez congelar. Buscou sair do transe que estava, beliscou-se e apesar de sentir dor e agora ter certeza que estava acordado, a cena a sua frente transcorria como em sua mente momentos antes.
— Sabia que este conjunto de folhas não é suficiente para te esconder né? Aliás, você é bem barulhento, como consegue caçar?
A voz.
João congelou, não sabia o que fazer. Os pensamentos em sua cabeça estavam correndo de um lado para o outro, tinha certeza que já ouviu aquela voz em algum lugar mas a figura a sua frente certamente não era humana.
— Deixe de bobagem homem, ajude este velho conhecido. Prometo que na próxima te deixo água para beber.
João não conseguia mais controlar os pensamentos, a cabeça começou a girar e suas pernas pareciam ter se transformar em dois galhos frágeis. Não havia escapatória. Aquilo sabia que ele estava ali. O mundo parecia girar mais rápido até que num grande estrondo tudo ficou escuro.
João acordou com sede naquela noite, os sonhos confusos e animalescos haviam secado sua garganta e precisava de água para molhar o bico. Levantou ainda meio zonzo de sono e foi cambaleante até a cozinha improvisada do barraco em que vivia, a cumbuca estava cheia.
“Pelo menos dessa vez tem água” pensou.
O pensamento fez gelar sua alma.
