Cartazes divulgação

“ALFAZEMA” — Um filme de Sabrina Fidalgo e uma crítica de Maria Amália Cursino

Maria Amália Cursino
Nov 6 · 4 min read

“Minha carne é de carnaval, meu coração é igual”… Swing de Campo Grande, dos Novos Baianos, se torna um clichê da zona sul carioca para entrar no clima do Carnaval. Ignoram o fato de que essa carne é, necessariamente, negra.

O falo purpurinado: seria ele, logo de cara, “queimando a largada”, o quadro-síntese da grande fabulação que é o Carnaval? Apenas uma provocação. Digo que, certamente, seria uma leitura parca e equivocada dizer que o falo-fotograma inaugural do universo Alfazema se trata de mera profanação, ou, ainda, um dispositivo visual de subversão e choque inconsequentes, por se tratar da FESTA DA CARNE e do que se espera testemunhar estereotipicamente.

É preciso submergir nas origens do Carnaval (sobretudo o carioca) para entender o campo de representações, resistências e momentos históricos que atravessaram sua conformação. Para isso, peço o auxílio luxuoso de Candeia:

Elenco “Alfazema’: Shirley Cruz, Bruna Linzmeyer, Elisa Lucinda, Bianca Joy Porte, Victor Albuquerque

Hoje é manhã de carnaval (ao esplendor)

As escolas vão desfilar (garbosamente)

Aquela gente de cor com a imponência de um rei, vai pisar na passarela (salve a Portela)

Vamos esquecer os desenganos (que passamos)

Viver alegria que sonhamos (durante o ano)

Damos o nosso coração, alegria e amor a todos sem distinção de cor

Mas depois da ilusão, coitado

Negro volta ao humilde barracão

(Trecho de Dia de Graça)

Em qualquer pesquisa menos aprofundada, Carnaval seria “um festival do cristianismo ocidental que ocorre antes da estação litúrgica da Quaresma.” Está posto dessa forma no Wikipedia, logo no início.

No caso brasileiro, não é de se espantar as demonizações decorrentes. Sobretudo no atual desgoverno fascista, racista, machista, misógino, neopentecostal que está em curso quando desta crítica. Ignoram-se os atravessamentos, tensionamentos, fissuras, caminhos inimagináveis de sobrevivência física e mental do povo preto com o advento das manifestações carnavalescas em todo o Brasil. São os que assinam o espetáculo e prescrevem a alegria para si próprios e para quem mais chegar. Carnaval é remédio e profilaxia para o povo preto. É o pressuposto de continuar resistindo. São contornos de criação visceral que de forma alguma podemos prescindir, jamais poderão ser menosprezados em uma análise de acuidade mínima.

Portanto, é um contrassenso apartar a amálgama do Carnaval da íntima e histórica relação fundante da festa, no Brasil, com o corpo negro, sendo ele o próprio corpo carnavalesco. Seria como alienar “criador e criatura”. Onde começa um e termina o outro? Bem, está dito.

No segundo filme da “Trilogia do Carnaval” — que tem como primeira incursão o média metragem “Rainha” — idealizada pela cineasta, produtora, diretora, roteirista e atriz Sabrina Fidalgo, Alfazema lança luz, aponta a câmera e propõe ação às dimensões encantadas, para muitos, ou ao sobrenatural, para tantos outros, em uma aposta de dar conta de muitas e variadas camadas subjetivas sugeridas a nos fazerem pensar: nos íntimos desejos humanos; na exposição egoica dos corpos, das corpas, des corpes nas trincheiras da alegria; nos pulsos de vida e de morte exacerbados pela folia; na alternância sazonal e racial de PODER.

A construção arquetípica dos demais personagens centrada na psiquê da personagem principal, Flaviana, nos coloca em contato com a subjetividade da fabulação que, de maneira insubmissa, executa deslocamentos para-universo diegético, ou seja, cria movimentações do eixo narrativo não necessariamente evidenciando porções do mundo real, já que ora somos tragados pela metalinguagem do fazer fílmico (ou não, é encenação?), ora compartilhamos nosso olhar-expectador com o de quem fotografa as ações em cena, ainda sendo nós impactades com quebras cirúrgicas da quarta parede (que parecem ao acaso, mas só parecem). Uma ousadia que propõe reflexões acerca de como humanes operam suas crenças, seu labor artístico, seus temores, seus traumas, suas contradições. E de como o cinema pode ser um espaço de reinvenção dele próprio.

O demônio na orelha de Flaviana

Impossível não racializar aquela subjetividade no filme, tendo em vista, obviamente, se tratar de uma protagonista preta, porém não só isso: existe no filme aspectos e vivências essencialmente pretos, como a flagrante exigência da nomeação — “já disse, meu nome é Flaviana!!!” e a (auto)inscrição da personagem no universo narrativo. Entre um demônio e um anjo brancos, que revelam paixões mundanas, existe uma Mulher Preta, Flaviana, e, acima de todes, a Força Estranha e Cósmica que é, também, uma Mulher Preta.

“Tudo que se faz na Terra, se coloca Deus no meio — Deus já deve estar de saco cheio.” (Saco Cheio, de Almir Guineto)

Deus entra em cena como personagem definidora do tom da narrativa do ponto de sua aparição em diante. Elisa (Lucinda) nos oferece Deus imerso no bom e consagrado “papo reto”, onisciente, onipotente e onipresente que destila conhecimento fundante dos Mistérios da Vida, em um monólogo que corrobora que Deus é, de fato, uma Mulher Preta. Não nos deixa resquício de dúvida.

Elisa Lucinda é Deus

O deslocamento diegético se torna cada vez mais radical e desconcertante quando a diretora, Mulher Preta (mais uma camada de raça e gênero) que concebe o universo fílmico, entra em cena com Deus, que é a Mulher Preta que concebe o Universo com sua Cosmologia Afrocentrada.

Interferem, ambas, em equilíbrio dinâmico, dentro, fora, entre. Manipulam, alteram realidades (e fabulações), a bricolagem da Vida e da Arte, como bem quiserem.

Maria Amália Cursino

Written by

Possui graduação em Comunicação Social pela ESPM. É Técnica Universitária II da UERJ, pesquisadora em relações étnico-raciais e cofundadora do Coletivo Pretaria

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