a roda da bicicleta

Esses dias eu enfiei a roda da bicicleta numa valeta e passei vergonha na frente de todos os meus vizinhos, e a história não ficaria mais interessante do que isso se não fosse o que aconteceu depois. Mas antes eu precisaria contar de uma vez que eu quase fui roubado.

Teve uma vez aí que eu quase fui roubado.

Aliás, essa é uma frase que carrega um pouco de incorreção, porque eu já fui roubado algumas vezes na vida, mas dessa vez foi só quase. Estava eu no ônibus com mais duas pessoas quando uma dupla de cidadãos absolutamente travados e de touca tentaram me convencer que, devido à iminente necessidade de “fazer um direto lá pra cadeia”, eu precisaria cedê-los meu recém-comprado celular. Eu e minhas companhias ponderamos relutantes por alguns segundos, mas, devido à dificuldade dos honoráveis subtratores em achar a arma de fogo imaginária que me convenceria da gravidade da situação, ganhamos coragem suficiente para levantar e ir até a parte da frente do coletivo. O motorista, compadecido da nossa situação, resolveu expulsar os dois amigos de seu veículo e então tudo ficou bem. Tudo meio tenso, mas bem.

Isso já faz mais de um ano, mas aí essa semana eu enfiei a roda da bicicleta numa valeta e passei vergonha na frente de todos os meus vizinhos.

Um pouco surpreso e com uma leve dor na perna, praguejei de dor. “Ai, caralho!” — exclamei — torcendo pra que aquele palavrão me tornasse menos ridículo. Não tornou, então decidi que levantar e ir embora vazado seria a melhor opção, mas antes mesmo de estar completamente em pé ouvi uma voz se preocupando comigo:

– Eita, irmão, tá bem?

– Tô sim, não machucou.

– Cuidado aí.

O solícito cidadão veio na minha direção pra me ajudar a levantar, mas desistiu quando percebeu que eu já estava de pé. Era um dos ladrões daquele dia. Feliz, sorridente e de touca, cumprimentou alguém que estava na calçada próxima e continuou a descer a rua despreocupadamente. O sábado estava só começando.

Amâncio Willahelm dos Reis

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