o cara do ponto de ônibus

Dia desses, encontrei no ponto de ônibus um colega que há muito não via. Nós trabalhávamos juntos e éramos bons amigos, dado o contexto em que estávamos inseridos.

A empresa era vista por todos nós como um pesadelo. Um grande purgatório onde jovens em busca de um primeiro emprego habitavam, devido aos baixos critérios que envolviam a admissão dos funcionários. Estávamos todos lá, basicamente, devido à necessidade irrevogável de dinheiro ou independência familiar. Ou ambos.

Pois bem. Dentro deste contexto, havia muita gente com gostos e mindsets compatíveis — uma maioria, digamos — e tinha eu. Eu estava bastante consternado com o fato de precisar de trabalhar num lugar que eu não gostava, fazendo algo que eu não gostava e ganhando pouco dinheiro pra isso; então eu acabava me juntando com gente igualmente consternada. Acabei criando boas relações, pessoas que me ajudaram a passar os dias nas corporações inferno com o mínimo de sanidade e complacência mútua àquela tragédia cotidiana compartilhada. Atualmente, pouquíssimas dessas pessoas ainda estão presentes na minha vida, por mais que eu nutra enorme consideração por muitas delas, e é justamente esta reflexão que me trouxe ao presente texto.

A minha mesa e a mesa do cara do ponto de ônibus eram vizinhas, e isso contribuiu para que construíssemos uma boa relação. Tínhamos gostos em comum (gostávamos de ironizar a empresa e seu papel degradante no mundo, por exemplo), e possuíamos o mesmo cargo, então, naturalmente, nos aproximamos. Conversávamos todos os dias sobre os mais variados assuntos, nos ajudávamos, interagíamos nas redes sociais e mantivemos essa amizade por todo o tempo em que ambos permanecemos na empresa.

O tempo passou e a maioria esmagadora dos meus colegas acabaram por deixar aquele lugar, alguns indo ao encontro de novas e melhores oportunidades, outros apenas abrindo mão daquele cotidiano. Eu acabei saindo de lá e o cara do ponto de ônibus também.

Pouco tempo depois, chegamos a nos encontrar no meu bairro, já que moramos relativamente próximos um ao outro. Ficamos satisfeitos em nos ver, compartilhamos nostalgias, desejamos o melhor um ao outro e seguimos nossos caminhos. Alguns meses depois, novamente, nos encontramos no ponto de ônibus — o ponto do mesmo ônibus onde ocorreu o encontro mais recente, que me motivou a escrever este texto. Ambos estávamos na companhia de outras pessoas, então não conversamos desta vez. Apenas nos cumprimentamos com mãos e sorrisos cordiais.

Semana passada, ao voltar do trabalho, cansado e com pouquíssimo interesse em interações sociais, parei na fila do ponto de ônibus e percebi que logo à frente estava este meu amigo. Ele se virou para trás para examinar a distância entre o ônibus e o ponto e nossos olhares se cruzaram por um breve momento, mas que durou tempo o suficiente para percebermos a presença um do outro. Tão rápido quanto tinha se virado, ele se voltou à posição inicial e lá ficamos, paralelos e esperando a fila andar.

Subi no coletivo bastante pensativo e um pouco melancólico. O tempo nos havia transformado, mutuamente, de amigos a caras do ponto de ônibus.

Amâncio Willahelm dos Reis

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Amâncio Willahelm acredita que existir não é a característica primordial para se estar vivo. O problema é que só ele acredita nisso.

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