Bela, recatada e do lar: breves e importantes reflexões
Eu que amo escrever não gostaria de escrever esse texto. Penso que ele é um tanto desnecessário. Já comecei e parei várias vezes. Mas aí, eu abro no Facebook e vejo uma interpretação totalmente avessa, e vejo que sim, é necessário escrever, mesmo que existam outros vários textos sobre o assunto. Minha reflexão é voltada à um contexto local.
Nesta semana, as redes sociais foram invadidas de fotos com as#belarecatadaedolar. (A minha tá aqui ó, peguei bem leve, fazendo o que escolhi: ser jornalista). Se trata de uma campanha em resposta à matéria de teor totalmente machista da revista Veja, que traça um “perfil” de Marcela Temer, esposa do vice-presidente Michel Temer. Na matéria, ela é relatada (e nem foi entrevistada, pequeno detalhe jornalístico), como uma mulher do lar, recatada, que usar roupas claras e pelo joelho.
A campanha, apesar de ser um sucesso e maravilhosa, ofendeu muitas mulheres. No interior, onde o movimento feminista é criticado pelas próprias mulheres (triste, eu sei), parece que não entenderam o real objetivo do #belarecatadaedolar.
Vi vários posts afirmando que “não há problema em ser bela, recatada e do lar”. A maioria por mulheres que se identificam com Marcela, por se dedicarem à família e não trabalharem fora. Não há problema mesmo! Assim como não há problema em estudar e trabalhar, participar da vida pública e tudo mais. Não é o objetivo promover uma competição entre os estilos de vida de cada uma.
Ninguém quer julgar ninguém. A reflexão é: você escolheu essa posição? Ou é obrigada pelo seu companheiro? Ora, não podemos fingir que não existe em muitas cidades, nas grandes, pequenas e médias, um abismo entre os sexos. Em muitas famílias, a mulher é impedida de estudar e trabalhar fora. Por questões diversas, resumem sua vida à cuidar da casa e do companheiro. Isso é machismo. E é isso que nós combatemos. Somos contra um sistema que cala, que oprime as mulheres e as priva de suas escolhas.
Aqui também traço outro paralelo. Conheço mulheres que cuidavam da casa e se viram obrigadas, por questões financeiras, a ajudarem seus companheiros nas despesas. Afinal, não é fácil manter uma família. A crise é real e nós sabemos. Nem todos os casais conseguem pagar as contas com apenas uma pessoa trabalhando.
Mas uma coisa é certa: isso não é mimimi. É um debate importante e necessário, que por vezes só passa perto de quem se interessa a fundo por questões feministas, coisa que é muito rara e criticada aqui no interior. Não é um exagero. é ainda pouco pelos avanços que precisamos ter na sociedade brasileira.
Portanto, é desnecessário o ódio ao movimento feminista e as mulheres que escolheram um estilo de vida diferente, seja ele qual for. Viva a pluralidade e a empatia. O movimento é para todas, até, ou principalmente, para quem acha o feminismo desnecessário. O feminismo luta pelos direitos, luta pela igualdade, e acima de tudo, pela liberdade de todas.
Quem se ofendeu com os posts, com os meus, inclusive, peço desculpas. Não é porque escolhi não ser do lar e recatada que eu condene as mulheres que tiveram essa escolha. Foi uma crítica aos padrões impostos pela sociedade. Acredito que fui bem clara, mas existem muitos textos bons sobre o assunto. (Indico um aqui e outro aqui).
Cada mulher deve ter a liberdade para escolher o é melhor para si — seja dedicar sua vida ao marido e aos filhos, ou preferir ter uma carreira profissional de sucesso. Ou os dois? sim, nós podemos! É clichê, eu sei, mas acho válido e lindo terminar com Simone de Beuvoir . “Que a liberdade seja a nossa própria subsistência”.