O cemitério e a vontade de viver

As visitas ao cemitério, toda vez que visito minha cidade, sempre acontecem. Não digo que são obrigatórias, mas sempre tiro alguns minutos para a visita no local, que fica quase ao lado de casa. Pego velas, fósforos, óculos escuros e ando a passos lentos por ali.

Cemitérios são lugares inquietantes. Há quem goste de visitá-los, por sentir uma estranha paz ou em busca da sensação de estar perto de quem se foi. Há quem os evite a todo o custo, mesmo sabendo que ali todos nós estaremos um dia – salvo aqueles que preferem virar pó. Eu confesso que não sei dizer a razão de sempre ir.

Ali, mesmo em dias quentes, parece que sempre há vento. Uma brisa que não sei de onde vem. Ela é levemente gelada e insiste em apagar as velas que ali estão por um motivo. Parece, talvez seja algo que nem todos sintam.

No cemitério, há quem diga que sentar no túmulo é pecado. E que não lavar os pés ao voltar de lá representa algum mal. No cemitério reina o silêncio, quebrado às vezes por lágrimas e pequenos ruídos de fósforo para acender as velas. Ou dos pássaros que cortam o céu.

Hoje, sentada no túmulo no meu avô (sim, sei que não pode, mas me sinto mais perto), comecei a pensar no que o cemitério representa. As sensações que me provoca. As inquietações, medos e até uma certa inspiração.

O cemitério povoa a mente infantil como um lugar de temor. Onde os mortos irão se levantar ao escurecer ou fantasmas irão aparecer sentados em cima dos túmulos, estejam eles sujos ou limpos, abandonados com teias de aranhas e mal pintados ou ornamentados com flores frescas e coroas coloridas. Confesso que em raros momentos, quando voltava da escola sozinha à noite, tive medo de passar por ali.

Na vida adulta, é um lugar onde ninguém quer ter que visitar. Ninguém quer ter um motivo para ir, afinal a morte é o único motivo possível.

No cemitério, o que mais me incomoda é saber que ali tudo acaba. Por um lado, acaba todo e qualquer tipo de medo, essa sensação tão inerente ao ser humano em qualquer época da vida. Por outro, acaba com todo o sonho, toda a perspectiva, toda a vontade de fazer a existência na terra valer a pena. No túmulo também encerra a maldade, a inveja, a vontade de comprar aquilo que não precisa. Acaba tudo. O bom e o ruim.

É estranho e triste sentar no túmulo pensar que ali encerraram tantas vidas. Algumas tão curtas, que certamente causaram muita dor e sofrimento aos que ficaram, e outras longas, porém não menos dolorosas, afinal o simples fato de viver pode ser uma dor.

Feitos os rituais de sempre, caminho devagar em direção ao grande portão . Olho para o cemitério e reflito. Sair dali me dá vontade ou a necessária coragem para viver. Talvez seja por isso que eu sempre vá ao cemitério.

No futuro, não quero que ninguém veja meu túmulo e pense que eu não fiz tudo que eu queria. Que eu não realizei todos os meus sonhos e desejos. Que eu não vivi tudo que tenho pra viver. Vontade de viver. Sim, agora tenho certeza. É o que sinto ao sair do cemitério.

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