PORQUE NÃO OUÇO MAMONAS
Mamonas morreram há vinte anos. Mas sua mensagem continua viva até hoje.

Fazem vinte anos desde que os Mamonas sofreram o trágico acidente de avião que tirou a vida de todos. Quando surge esse assunto, meu pai sempre diz: “tenho certeza que foi aquele idiota do Dinho que foi brincar na cabine”. Parece sensacionalista. Ou não.
Isso me fez pensar seriamente no que exatamente fazia do Dinho, um cara de cueca rosa rebolando na TV e denegrindo a mulher nas suas letras machistas ridículas, com palavreado chulo e pobre, o meu ídolo aos 5 anos. Aos 16, descobri que eles haviam tentado com uma banda “séria”. A música “O outro lado da vida” do Utopia é muito legal. Se fosse hoje em dia, diria que essa banda não rendeu vizualizações no YouTube, nem likes no Facebook.
Eu não sou ninguém pra julgar o sonho de outra pessoa. Mas eu tenho o direito de não concordar com um grupo de amigos que tinha muito talento, desistir do caminho level hard pra pegar um atalho no que o povo mais adora: letras animadas que menosprezam a mulher, que a trata como fútil, interesseira, objeto sexual e ataca minorias que são alvos de piadas desde sempre. E não venha me falar que “Robocop Gay não é homofóbico. Releia a letra. Faça isso de novo. Agora se imagine cantando e rebolando imitando o que você considera ser atitudes homossexuais, enquanto você manda ele fazer o bigode e uma plástica. E sim, ele se refere aos transsexuais no começo da letra “devido a um ato cirúrgico, hoje eu me transformei”. Essa letra, que é realmente o maior motivo de eu escrever esse texto, mostra total falta de respeito com a comunidade LGTBS, misturando informações, fazendo chacota com esteriótipos e abordando de forma constrangedora e generalizada o que o Dinho entendia por “gay”.
Eu não posso obrigar pessoas levantarem bandeiras, ainda mais bandeiras que definem mais elas do que eu. Confesso que fiquei assustadíssima com comentários vindos de homossexuais defendendo essa banda. Eu achava que a luta era pra que as mulheres se respeitassem, assumissem seu papel na sociedade conquistando de verdade seu posto igualitário. E quando eu falo em respeito não tem nada a ver com roupa ou número de parceiros. Falo de respeito próprio, respeito pelos seus sonhos, pelo que você é, orgulhar-se de si mesma (orgulho esse que a Beyoncé divamente esfregou na cara da elite branca americana no SuperBowl). Mas não é só isso. Percebi essa semana que Mamonas foi um vírus que se espalhou pelas nossas casas e mesmo hoje vinte anos após a morte da banda, as pessoas ainda a chamem de “maior banda do Brasil”. Sim, maior banda machista que fez mulheres e homossexuais cantarem suas musicas. E cantam até hoje.
“Ah, mas tem aquela música que…” Não, não tem absolutamente nenhuma música daquele CD que se salve, a mais leve é “Sabão Crá Crá e coincidentemente, não é de autoria deles. Também é notável que as piores letras são de autoria só do Dinho e, também, as mais ouvidas. Segue minha lista de adjetivos pra cada uma delas:
- 1. ”1406" (Dinho, Júlio): relacionamento abusivo, mulher e filhos como fúteis
- 2. ”Vira-Vira” (Dinho, Júlio): xenofobia, machismo, relacionamento abusivo
- 3. ”Pelados em Santos” (Dinho): mulher como objeto, relacionamento abusivo, indícios de tentativa de estupro
- 4. ”Chopis Centis” (Dinho, Júlio): “levar as namorada”. Mulher tratada novamente como inferior
- 5. ”Jumento Celestino” (Bento): xenofobia, violência urbana
- 6. ”Sabão Crá Crá” (música folclórica)
- 7. ”Uma Arlinda Mulher” (Bento, Dinho): machismo, mulher como objeto, homem como salvador, relacionamento abusivo, violência doméstica (a música mais acessada desse CD)
- 8. ”Cabeça de Bagre II” (Bento, Dinho, Samuel, Sérgio): protesto contra a sociedade, mas crítica ao cidadão, tachado de idiota quando tenta discutir política
- 9. ”Mundo Animal” (Dinho ): zoofilia, parece legal a crítica à caça às baleias, mas a primeira frase é sobre fazer sexo com tatus e cabritas
- 10. ”Robocop Gay” (Dinho, Júlio): homofobia, xenofobia
- 11. ”Bois Don’t Cry” (Dinho): relacionamento abusivo, mulher como promíscua
- 12. ”Débil Metal” (Dinho, Bento, Júlio, Samuel, Sérgio): nessa música, os fãs são tratados como otários segundo a própria letra “can’t you understand, boy? So shake your head sucker” após uma estrofe de frases sem sentido que cantávamos sacudindo a cabeça literalmente (e a grande massa e crianças) sem entender uma palavra em inglês.
- 13. ”Sábado de Sol” (Dinho, Bento, Pedro Knoedt, Rafael Ramos): como é ser a favor da legalização ouvindo um cara te chamar de ladrão de feijão?
- 14. ”Lá Vem o Alemão” (Dinho, Júlio): novamente mulher como objeto, mulher vista como promíscua, violência doméstica, relacionamento abusivo, mulher como fútil
Confesso que sei cantar todas as musicas, e fiquei envergonhada de até os meus 17 anos, curtir essa banda. E fico mais envergonhada de ver amigos meus de 30 anos defendendo Mamonas e Feminismo. Simplesmente a maior controvérsia que já presenciei em rodas de conversa. Mamonas Assassinas assassinaram a chance de levar uma mensagem positiva pra todos os milhões de fãs que conquistaram em pouco menos que um ano, acabou caindo no atalho da facilidade, subindo pra fama usando meios deprimentes como escada. Se hoje essa geração de brasileiros homens continua se comportando como se estivessem nas cavernas e as mulheres permitem, Mamonas teve sim, sua parcela de culpa.
Se ainda resta algum argumento, ouça novamente o álbum hoje lendo as letras, sem se deixar levar pela nostalgia. Se mesmo assim você se considerar feminista e quiser debater, estou a disposição. Mas se você não vê nada de errado com as letras e ainda acredita que o mundo está chato com tanto mimimi, me polpe e não fale comigo sobre esse texto.
Amanda Hirashima
02/03/2016