A BBC é um oásis que precisamos conhecer
Com todo o respeito aos profissionais que já vieram ao Ielusc nos últimos anos, mas nunca esperei tanto por uma palestra como a que teremos nesta segunda-feira, com o editor-executivo da BBC Brasil, Caio Quero.
Isso porque a BBC representa, aos meus olhos, um jornalismo diferente do que se produz em outros veículos nacionais — e talvez isso se deva justamente ao compromisso público de uma das empresas de comunicação mais reconhecidas no mundo.

A BBC — British Broadcasting Corporation — é uma empresa pública de comunicação fundada na década de 1920, em Londres, e lá é mantida com recursos da sua audiência, que paga uma taxa de licença por televisor. Há uma série de diferenciais que marcam sua trajetória, muitos deles visivelmente expressos nos valores institucionais, como o compromisso com a honestidade e o reconhecimento do leitor como agente central que move essa engrenagem toda.
A BBC Brasil, por outro lado, é peça da BBC Worldwide, que são os braços da empresa no mundo, mas que levam sua marca e seus compromissos a inúmeros países. Segundo o Media Ownership, a subsidiária é diferente da empresa britânica e, inclusive, auxilia na sua sustentabilidade, mas teria como uma de suas características “ acompanhar as transformações tecnológicas para manter, no Brasil, o padrão BBC de informação e cultura”.
A BBC Brasil produziu duas excelentes reportagens recentemente, ambas com um potencial de “mudar o mundo”, para fazer jus a nossa campanha institucional de 20 anos do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc.
Uma delas traz uma série de dados levantados pela equipe sobre trabalhadores que morrem soterrados por grãos em silos de armazenamento da indústria agrária. Um trabalho de fôlego para tirar do silêncio um dado chocante. Uma reportagem capaz de nos fazer pensar sobre o outro a partir de uma apuração completa.
A outra conta a saga de moradores de rua da maior cidade do Brasil em busca de um copo de água e mostra o nível da miséria em que podemos chegar. Não a miséria de quem busca o mínimo para a sobrevivência, mas a miséria de quem não acolhe, de quem é incapaz de sentir empatia.
A BBC Brasil também tem feito o que chamo de “pautas perguntas”, um recurso usado no jornalismo do Nexo. Neste momento, sua manchete é uma dessas pautas. “Qual será o impacto do atentado contra Bolsonaro na corrida eleitoral?” É o tipo de material que se propõe à dúvida e às análises e interpretações diversas para contribuir com o debate público, uma missão cara ao jornalismo.
No Brasil, a BBC ainda é identificada pelo portal, que tem anúncios via Google Ads, o que também o diferencia dos portais de notícia mais tradicionais do país. No Reino Unido, a BBC tem canais de televisão, rádio e desenvolve de documentários a talk skows, passando por toda uma gama também de produtos do entretenimento.
Ano passado conheci uma de suas redações na cidade-mídia localizada em Manchester, Inglaterra. Fui até lá para entrevistar um “series producer” para a minha tese e fiquei bastante impactada com o tamanho e a qualidade do trabalho de uma empresa pública. É impossível não pensar que seu conceito de qualidade, de respeito à audiência e de compromisso seja capaz de produzir efeitos também por aqui.

