A história do amor é, desde sempre, a história da despedida.

Foi num dia frio e cinza de outubro que descobri isso, quando parou diante de mim um caminhão de mudanças. Era um veículo velho, com a carroceria meio enferrujada e carregado de coisas e tralhas que eu sequer saberia de quem era, mesmo tendo ficado estática diante dele por horas.

O caminhão estava cheio de móveis e de sonhos. A metade deles tinha sido retirada de uma casa ainda nova, mas que se esvaziava a cada passo que o motorista do caminhão e seus ajudantes davam em minha direção. Um fogão, uma cama, caixas de papelão de todos os tamanhos, uma TV pequena, um tapete persa. Pra onde vai tudo isso?, pensei. Até me dar conta de que separar é se dividir ao meio.

A metade de um amor se foi e aquela era mais uma história de separação. Ao invés de pensar em como tivera sido a partilha dos bens, eu pensei em como poderia ser ruim deixar uma casa — e alguém — pela metade. Em como é um ato de coragem encher um caminhão de mudanças com partes do que já foi todo. E me doeu perceber que era só mais uma mudança, dentre tantas que acontecem no mundo, por minuto, por segundo, derrubando histórias de amor que se julgavam únicas, resignando almas solitárias, ensaiando o cortejo de mais uma história não vivida, interrompida, desiludida.

Aquela casa, que já fora cheia, estava inteirinha pela metade. Como estava eu, no momento em que vi a jovem mulher que partia virar-se de costas e sumir. Inteira pela metade.

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