As casas dela

Na primeira vez que entrei naquela casa, o ambiente era frio e suas paredes choravam um choro velado, como que suplicassem pelas lágrimas que já lhes pareciam fora de lugar. A cada passo dela, um suspiro, um medo, um deja vu. A cada movimento dela, a necessidade permanente de inanicação, como se ficar parada, estática, tornasse as coisas um pouco melhores.

Era o ambiente duro e hostil da separação, dos sentimentos idos, dos cortes silenciosos na alma. E aos poucos a tinta, o cimento, as sujeiras todas e o pó se uniam às palavras não ditas, à dor sofrida, ao momento do adeus.

Foram duas casas em obra. A de fora e a de dentro. Na casa de fora, era tudo absurdamente visível. Os móveis cobertos de lona, o piso tomado de gesso, o cheiro da tinta fresca e a sensação de desordem. Na de dentro, uma dor retumbante, a impotência e o medo do fracasso. A vontade dela era de fugir de fora e de dentro, de abandonar o caos e os cacos, de interromper o movimento de renovação.

Continuar naquela casa era mostrar que é possível resistir à brutalidade com que a vida faz surgir aquela dor cortante de um adeus. Seguir em frente era permitir que as obras — lá fora e lá dentro — mudassem cenários, trouxessem nova cor, novos cheiros, novas peças. E ao escolher seguir, escolheu viver, porque tinha de ser.

Quando voltei naquela casa, muitos sóis depois, senti que a obra tinha acabado. Eram outras — ela e a casa — que respiravam o ar por dentro daquelas paredes cheias de histórias, e lágrimas, e novos sorrisos. Já não sentia mais o cheiro e o vulto do medo, da dor. Já não se ouvia mais o silêncio de um amor interrompido. Voltar àquela casa me trouxe uma sensação reincidente e reconfortante de recomeço, de conquista, de paz recuperada. E percebi que a obra de dentro dela também estava concluída, sem cacos, sem caos, sem traumas. Uma obra silenciosa e longa, subjetiva e única, como aquela lágrima que um dia lhe abatera o rosto mas que lhe deu motivos para recomeçar.

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