Entrevista com uma mulher incrível: Gaía Passarelli

Meu bate papo com a Gaía foi só a constatação do que já imaginava que seria: alto astral. Nós conversamos muito sobre música, discos e viagens. Ela tem muita coisa pra contar e essa entrevista é só o recorte de sua história. A Gaia é a sexta mulher incrível dessa série. Ela também é autora do livro Mas você vai sozinha?.
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/ Como surgiu o rraurl.? E como foi fazer parte do primeiro site de música que surgia na internet nos anos 90/2000?

A ideia do rraurl. era apenas isso: Estava rolando um monte de rave no Brasil — talvez nada parecido como hoje em dia em relação a festas — e tínhamos essa missão, falo missão porque era missão mesmo, fazer crescer. Não tinham veículos falando de música eletrônica brasileira. A única coisa que tinha era a coluna da Érika Palomino na revista ilustrada, uma vez por semana, de uma página.

Nessa época eu estava bem perdida na vida, então fui fazer um curso de programação no SENAC de HTML. Meu melhor amigo, o Gil, já era fera de computador, trabalhava com audiovisual e o Camilo Rocha, que era nosso amigo, voltou da Inglaterra falando — “Então, lá na Inglaterra as pessoas estão usando uma coisa chamada internet para divulgar as festas” — E a gente, do rraurl, tentou imitar esse movimento também e super rolou mesmo, porque o rraurl durou 14 anos e foi o primeiro site realmente importante de música alternativa no Brasil. Durante um tempo, o site era dedicado apenas para música eletrônica e uma hora, pelo nosso próprio interesse natural, a gente achou que tinha que ser mais que isso. O Jazz, O Hip Hop, O Rock estão bombando, não dá pra não falar disso. Nessa época conseguimos investidores, tínhamos inclusive uma redação com 7 pessoas para poder dar vazão a tudo isso, e foi a fase mais legal do site. E daí menina, apareceu um monte de blog de música, e aí, fudeu.

Passou um tempo, tinha muito blog, as pessoas já não ganhavam mais pelo trampo, e eu não acredito em trabalho de graça. Olhei para o site e pensei: Nossa, já deu! Tem outras coisas acontecendo com outras pessoas….É outro tempo e tudo bem, sem apegos.

/Como foi o convite/processo, eu não sei como chama isso, mas como foi a sua aproximação com a MTV?

Em 99/2000, trabalhei na MTV como programadora de HTML, pouca gente sabe disso, mas a minha primeira passagem na MTV foi essa. Depois voltei para ser vj. Uma hora eles vieram perguntar se eu podia indicar uns caras pra ser vj — “a gente quer um cara jovem, bonito, tatuado, moderno e que manje de música e fale bem com a câmera”. E eu pensando: não conheço e nem sei quem é essa pessoa, mas indiquei um monte de gente, uns 10 e ninguém passou no teste. Daí passou uns meses e minha amiga veio falar que nenhum daqueles caras tinha rolado. Aí soltei: QUER FAZER UM TESTE COMIGO? Não sou um cara, mas tenho tatuagem, manjo muito de música, tirando o gênero, tá tudo certo, e estou precisando muito de um emprego.

(risadas maravilhosas)

Aí fiz o teste e fui embora pensando: “Ah, magina, não vão me ligar…” E eles ligaram e explicaram que era pra fazer um programa de música moderninha e aí nascia o Goo.

/E o Goo era um programa incrível, com muita música que realmente ninguém conhecia, tinha uma curadoria muito genia, né?

Sim e eu tô enrolando para fazer uma playlist de músicas só do Goo e eu não consigo fazer porque quando vejo, tô assistindo vários videoclipes, sabe aquele looping do Youtube?

/ E quem fez parte da criação do Goo?

É importante dizer isso: O Goo não é só criação minha. O dia em que cheguei para fazer a primeira reunião do programa, estava me esperando na porta a Mari Metri e ela disse: “Oi, meu nome é Mariana e vou ser sua diretora” E ela estava com um colarzinho que o pingente era o Bowie, vi aquilo e pensei: “Ah, vamos ser amigas e vai dar tudo certo”. E deu mesmo. A Mari é roteirista, diretora, editora, porque na MTV você nunca era uma coisa só. Eu só fui fazer o programa se eu pudesse palpitar na criação, falar das bandas, porque senão não faria sentido.

/Mas depois teve o MTV1 e o extrato MTV também, não é?

Teve! O MTV 1 por exemplo durou 2 anos até o final da MTV. Aí fiz parte da última leva de vjs, que foi uma parada que eu nunca planejei na vida.

/Lembro que teve aquele último dia de MTV (para mim super trágico, pelo vínculo emocional que tinha com o canal) mostrando os bastidores de tudo…Vocês ali se maquiando, alguns conversando, lendo pauta e etc. Disse até para minha mãe que na época eu não iria para faculdade nesse dia. Ela respondeu dizendo que seria uma besteira. Como foi esse dia pra você?

Besteira nada, cara! Aquilo foi coisa histórica na tv brasileira hahahaha! Foi lindo e um dos dias mais legais da minha vida. Top 3, junto com o nascimento do meu filho e alguma outra coisa que não lembro agora.

A gente sabia que ia acabar. Então vamos quebrar esse prédio, sabe? Vamos tocar o terror! Eles convidaram todas as pessoas que trabalharam em todas as gerações da MTV e isso foi muito legal. Todos os vjs. Os antigos super se envolveram e todo mundo estava bem emocionado. Sei que dado momento alguma pessoa lá embaixo do prédio falou: — Abre, deixa entrar! — hahahaha não tinha nenhum controle. Acabou a festa duas da manhã e foi lindo. Um um evento anárquico como a MTV era no começo. Aquilo nunca tinha sido feito. Ninguém nunca mostrou os bastidores que aconteciam numa emissora. Tem um pessoal fazendo um doc sobre os últimos anos de MTV e eles fizeram uma entrevista com o Thunderbird, que tem uma declaração dele especial, porque ele participou do começo e no final, no final mesmo. O Thunder é o vj dos vjs e o meu favorito também. Eu o via na TV e depois trabalhar com ele foi uma honra. E tem um momento nesse DOC que fico super emocionada porque ele diz que essa última geração de de vjs, que sou Eu, Chuck, China e os outros, para ele foi tão significativo e tão bacana quanto os primeiros vjs lá do comecinho.

/Super sinto falta de um canal assim, apesar de ainda existir, não tem o carisma que é nosso, sabe? Tinham programas incríveis como Na Brasa, o Goo…

Sim, nessa época quando estavam acontecendo todas essas coisas, não consigo explicar o por que, mas é que as pessoas não estavam vendo, estava passando batido, sabe? Então não ter por que manter. Tem uma quantidade de pessoas que gostariam que a MTV voltasse mas isso não justifica uma TV no ar. Porque fazer a coisa é muito caro. Muuuito caro.

/Entrevistei aqui a Debbie que ama discos e tem uma relação muito de amor com eles. E você também?

É, é uma relação de amor e cuidado, mas eles estão meio distantes, viu? É que eu estou com uma vitrola ruim. A vitrola boa era do boy e ele foi embora. Cê ganha umas coisas e perde outras. Essa é do meu avô, mas é péssima. Então eu ouço mesmo na caixinha, a vermelha, que às vezes eu posto no Instagram porque é muito mais fácil e tem tudo. E também assim, teve um período em 2015 que fiquei muito, muito sem grana, então eu vendi muita coisa, tinham umas coisas que valiam uma grana e vendi.


Eu deixei coisas da adolescência que tem um valor sentimental, coisas que eram do meu pai e da minha mãe e a coleção de discos do Bowie. Este último que demorou para fazer a coleção, entao não o dava pra vender mesmo. Mas vendi por exemplo, uma caixa de gravações do Velvet Underground foi difícil, mas ganhei uma grana. Vendi alguns livros também, várias coisas…

/Atualmente você está escutando alguma coisa nova?

Atualmente nada. Ando muito devagar com coisas novas. Entrei naquela idade que eu não sei mais o que são coisas jovens…

/Aquela sensação de ver o line up do lollapalooza e…

Quem são essas pessoas? Olha, hoje por exemplo estava ouvindo Angus Julia Stone que é uma dupla da Austrália; Savages, um disco que é do ano passado; Yo La Tengo que é uma banda que gosto demais; gosto muito de The Kills; andei ouvindo loucamente tudo do Twin Shadow; — Acho que por causa dessa coisa do Goo — Ouço muito Bowie e apareceu Justin Bieber aqui que eu não sei o porque.

Escuto muito música brasileira também e isso é recente. Essa é uma relação de uns ⅔ anos e tem a ver porque essas são as coisas que meus pais ouviam, então adolescente eu achava uma bosta, então agora mais velha, ouço e pô isso é muito foda, sabe? A música brasileira é muito maravilhosa, muito melódica, muito trabalhada.

/Viajar e gostar de música é bom pacote para aproveitar bandas locais nos lugares. Você repara nisso?

Olha, eu descobri que não tenho a menor ligação com essas coisas. Porque tem umas coisas que realmente são muito interessantes. E assim, um exemplo, fui para o interior da Escócia, hahahaha e desculpa, assim, gaita de fole, sabe? hahahaha enquanto curiosidade, acho legal descobrir, mas daí sair escutando… Não.

/A gente falou bastante de música e ainda não tocou naquele assunto: viagens. Como é isso tudo?

As coisas na minha vida vão aparecendo…(risadas gostosas)

Eu estava muito desanimada com o jornalismo cultural, desanimada mesmo, paga muito mal e só vai ficar pior. Eu tenho filho, sabe? A ideia de um blog de música, que falava com uma galera…Pô tem gente muito mais legal falando de muitas outras coisas, eu estava me sentindo a tiazona, sabe? Não quero. Sabe aquele coisa: Ah porque no meu tempo era mais legal — Não quero isso, medo. Estava muito sem enxergar para aonde ir…Eu tenho diploma em proficiência em inglês, então peguei alguns trabalhos de tradução e um desses trampos era de um site norte-americano que estava chegando no Brasil. Entrei na equipe para escrever em inglês lá (no site) e comecei a receber convite para viajar. Já estava fazendo isso na verdade, estava escrevendo sobre minhas viagens, porque gosto disso. Gosto de Geografia, História, sempre li muito sobre viagem então já estava rolando um processo natural e uma hora eu recebi um convite para ir ä Índia com tudo pago! (PAAAAAAAAAAAN!).

Aí voltei com uma porrada de coisa pra contar — a Índia é muito impactante — e voltei com outra cabeça. Não quero ficar fazendo canal no Youtube de música, enfim…acho que tinham coisas que estavam falando mais alto em mim naquele momento para fazer outras coisas.

/Muita viagens, no pacote vem também muita história e com elas o nascimento do seu livro… Como foi o processo de justificar a ideia de um livro?

Levei o livro em algumas editoras independentes e ninguém gostou muito. Aí acabei levando na Editora Globo. Eles olharam e disseram: Legal! Gostamos! Queremos! Aí pensei: WAT? TÁ!

E daí essa história do foco de livro ser mulher viajando sozinha ser ilustrado e com dicas de viagem, isso foi ideia da editora que trabalhou junto comigo.

Para mim foi um aprendizado incrível porque o livro não acontece com o escritor enfurnado no quarto, tenho um monte de ideia, rasgando papel, no escuro, na máquina de escrever…tem esse processo também. Mas para o livro se tornar real, tem muita gente no processo. Se fosse apenas eu trabalhando no livro sozinha, ia ser bem menos legal e muito mais pentelho.

/E como foi esse processo de trabalhar com uma equipe?

Incrível. Me pediram para sugerir algumas ilustradoras pra gente fazer uma prova. UAU! Ficar analisando cada um só pra mim? Que foda! E foi realmente isso que aconteceu. Sugeri algumas meninas e entre elas a Anália — Analia Moraes é a Ilustradora do livro de Gaia Passarelli — foi maravilhoso trabalhar com ela, porque é uma pessoa muito querida e tudo que ela fez foi muito lindo, tinha uma magia naquelas ilustrações. Passei para eles todas as ideias que tinha, daí conversando, conseguimos fechar em algumas coisas, depois fui entregando os textos e eles foram corrigindo, dizendo qual palavra era melhor nesse texto, qual frase cabia mais em um contexto x, tem que elaborar mais isso, faz mais aquilo…então para mim que sempre trabalhou sozinha, ter alguém para ajudar no texto foi ótimo. O livro também caiu num assunto muito em alta hoje em dia, que nem é a questão do feminismo, mas sim do feminino, empoderamento da mulher, que foi ótimo também.

Em Xochimilco

/E tem sempre essa pergunta, falando do título do livro…Você não pode estar sozinha nem para ir ao cinema, porque sempre alguém vai estar pentelhando no teu ouvido: “Mas você vai sozinha?

Olha, a primeira viagem que fiz na adolescência foi quando minha irmã ganhou dessas viagens de tia Augusta e me levou junto. Eu já era super independente, toda maluca e ficava fazendo minhas coisas, enquanto todo mundo ia ver museu, ia ver num sei o que lá…Eu ia ver minhas coisas, quando eu voltava — eu sempre voltava — encontrava o grupo das meninas, a pergunta era mesma: Mas você foi sozinha?

Eram meninas da classe média alta paulistana que nunca tinha andado num ônibus. Por outro lado, eu já tinha superado isso há muito tempo…Tava tranquilo pegar metrô, andar na rua na Inglaterra sozinha, por exemplo.

Passar por uma experiência sozinha, fazer coisas sozinha é muito bom, ir no café, fazer uma refeição…Isso dá uma oportunidade para conhecer você melhor.

Do que você gosta afinal? O que você faz quando não tem ninguém olhando? E quando isso vira uma realidade numa viagem por exemplo, você vai saber como lidar e curtir sozinha.

/Uma mulher que viaja sozinha tem perrengue, nem sempre, mas a gente vai passar por isso. Já teve algum momento muito horrível viajando sozinha?

Estava em um hotel na Índia, quando quis parar para tomar uma cerveja no restaurante que eles tinham, fui lá pedi a cerveja e fiquei lá tomando…comendo uma samossas. Resposta: Não. Primeiro porque o bar do hotel não era muito agradável, era meio que um porão, daí sentei ao lado de um casal gringo, mas eles foram embora. Droga!

Índia

Pedi a cerveja e tinha essa mesa de homens, uns caras locais, então eles acharam ruim eu estar tomando cerveja, então começaram a gesticular pra mim e eu entendi aquele incomodo, levante e levei a cerveja comigo. Chamei o garçom e pedi pra ele mandar a cerveja para o meu quarto. Nisso tive que repetir o número do quarto umas 20 vezes, então os caras ouviram, o garçom levou a cerveja, tudo certo, deu meia hora, os caras estavam na porta do meu quarto, breacos. Ficaram batendo na porta do quarto um tempo, foi super chato, fiquei assustada, claro…Liguei para a portaria e o cara nem quis falar comigo, disse que era room service. Imagina se eu tivesse aberto a porta? A culpa não ia ser deles. A culpa ia ser minha. Por que você abriu a porta? Por quê você estava lá bebendo sozinha? A índia é um país muito duro para as mulheres, mas nesses pontos não é muito diferente do Brasil. Nesse dia dormi de roupa e de tênis pensando se era possível fugir pela janela.

/Um dica para as meninas que querem viajar sozinhas, qual lugar seria ideal para começar?

Acho que para as meninas que estão pensando em fazer a primeira viagem sozinha, Portugal é ideal. Tem a facilidade da língua, ninguém te pertuba, é barato, a comida é muito gostosa e as pessoas são absolutamente adoráveis. Fácil de circular.

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