Entrevista com uma mulher incrível: Leila Evelyn

/Quando você se descobriu negra?

Essa pergunta é realmente muito boa, sabe… eu tenho uma irmã e ela apesar de negra, tem a pele mais clara. Sempre soube que era negra, quando o cabelo dela podia ficar solto e o meu tinha que estar sempre trançado, porque era cabelo crespo, cabelo crespo é feio e era feio porque eu era negra. Acho que a resposta correta é: nunca me descobri negra. Descobri o quanto era ruim ser negra, o quanto era doloroso, aos 7 anos de idade quando um menino me chamou de macaca — e eu enfiei uma caneta na mão dele. Aprendi que tinha que reagir com agressividade, isso me fez muito mal na infância e até hoje tenho dificuldades para me livrar desse fantasma.

/ Como foi essa sensação?

Foi desgastante, eu passei a infância inteira e adolescência quase inteira tentando me esconder, fingir ser uma pessoa que não sou por proteção.

/Como é a sua relação com as meninas que você faz trança? Qual seu papo com elas?

Eu sempre digo que trançar cabelos é como trançar as angustias, nós sempre acabamos falando sobre relações, família, violência, sobre racismo, sobre a sociedade. É incrível como sempre acontece de maneira natural. Quando acabamos — sim, parece um trabalho em equipe, pois enquanto tranço eu me dôo e recebo energias da outra pessoa — parece que acabamos uma sessão longa de terapia intensiva. Adoro essa relação, essa troca de experiência e aprendizado, mostra que a questão de estética para o negro é muito mais que aparência, é um ato político.

/O Afrontará fala de quê?

É justamente sobre esse empoderamento a partir da estética, tudo começou de maneira tão rápida e orgânica, não imaginei que ganharia tanta visibilidade a partir de algo que ainda estava aprendendo. A verdade é que a AFROntará fala muito sobre mim, compartilho e criou conteúdo relevante pra mim e ele é relevante pra muita gente também. Antes vendia turbantes por lá também, era uma lojinha. Hoje fala muito mais sobre sociedade, sobre esse racismo estrutural, inclusive foi a partir dela que nasceu o evento “Enegrecendo a Comunicação” e o grupo “Preta comprando de preta”, são insights e relações que criei com o próprio coletivo, fui à eventos, conheci pessoas e essas pessoas me ajudaram a chegar até aqui.

/Como é ser negra e universitária?

A presença negra é historicamente negada em ambientes acadêmicos, por séculos. O negro viu o desenvolvimento cientifico “de fora”, na faculdade só se fala em tudo pela visão do europeu, teorias, tudo… Não ouvi falar sobre filosofia africana, por exemplo. Ser preta e acadêmica é desafiador. É um dos ambientes onde me sinto mais subestimada, chegar até aqui, vindo de onde eu vim, é uma conquista enorme, nem minha mãe e nem meu pai tem formação superior, sou o orgulho da família e isso me da forças pra ir além.

/E negra e publicitária?

Teste de pescoço diário olho para os lados e não tenho ninguém com as mesmas angustias alguém pra dividir meus medos, aqueles que eu entendo. Sou um peixinho fora d’água e todos percebem, deixam isso bem claro, em todos os sentidos. A caminhada da mulher negra é muito solitária, a minha não é diferente. Quanto mais alto estou, mais distante dos meus, mais sozinha me sinto.

/Que som, preto ou não, você está escutando?

Desde o lançamento do ultimo CD do Rincon Sapiência… Mano eu to escutando todos os dias. Ponta de lança é a minha música favorita.

/Ascendente em quê mesmo garota?

Libra, não nega, né? Adoro uma problematização chique e causas sociais, além de não decidir a cor do cabelo e mudar sempre hahah.

/Dear White People foi muito massa né? Como as pessoas podem aprender com esse seriado?

Dear White People é simplesmente maravilhoso, eu ainda não acredito que acabou! Assisti duas vezes e aprendi demais. Acho que o principal ensinamento fica pra nós, enquanto movimento negro, cada um tem seu jeito de lutar e como própria Coco, minha personagem favorita (sim eu sou do contra, culpa do sol em aquário) disse, não importa quem está acordado ou dormindo se no fim todos estão tentando permanecer vivos. Hoje vejo muita picuinha, briga por ego e pequenos poderes, enquanto isso Rafael Braga permanece preso, é estatística.

/Você ama viajar que eu sei. Que lugar você quer mais conhecer no momento?

Mato Grosso, estou ansiosa para a festa do Congo. Fora que a cidade é quilombola, resistência negra, sinto que será uma conexão muito forte com a terra. Já sonhei, chorava muito.

/Como foi o convite para participar do programa Através?

Uma surpresa. Eu não imaginava que mesmo sem me movimentar tanto com o AFROntará, ele continuava sendo referencia para algumas pessoas, sinto que posso fazer muito mais, que ele pode me propiciar muito mais e a conversa foi tão gostosa que senti um impulso pra crescer ainda mais.

/Meninas negras que precisam te ouvir, então conte algo…

Sei que pesa, sei o quanto dói, mesmo quando queremos é impossível sair da defensiva. Eu sei de tudo isso. Porém acredito em um futuro próspero, sei que juntas podemos fazer muito mais, como diria o grande poeta Sapiência: aquele orgulho que já foi roubado, na bola de meia ‘tamo’ recuperando.

Resista!

Pesquise um pouco sobre o Afrontará e a Leila por aqui:

https://www.instagram.com/afrontadora/