Entrevista com uma mulher incrível: Stephanie Ribeiro

Sthephanie Ribeiro
  1. Stephanie, te chamei para falar aqui, porque na presença de várias mulheres maravilhosas que entrevistei, tu não podia faltar. Além de ser uma pessoa que acompanha o que você escreve, acho que pra mim você é uma das pessoas mais lúcidas na internet. A sua mensagem é muito importante, ainda mais para nós, mulheres negras. Queria entender de onde veio tanta força e inspiração para escrever e espalhar essa mensagem para quem deve chegar: nós, negras.
Primeiro quero agradecer o convite, a consideração e o carinho. É comum na minha família mulheres usarem a escrita como uma das principais forma de comunicação, lembro da minha mãe desde muito cedo me incentivando a ter diários. Quando me vi numa situação em que eu estava triste e me sentia solitária eu comecei a escrever. Sempre me inspiro nas mulheres da minha família, minha mãe Cristiane Mendonça é sendo dúvidas a pessoa que mais amo e mais me ama e inspira no mundo. Acho ela tão incrível, inteligente e divertida. E quando comecei a me posicionar em relação a questões de raça e gênero, minha mãe não só me apoiou como lê todos os meus textos. É uma abertura enorme um apoio maior ainda. Nada que eu quis, ela disse que eu não deveria ou não poderia ela é minha grande incentivadora, fazer universidade seria impossível sem minha mãe que criou duas filhas sendo mãe solo, o que é muito complexo, recebeu críticas e ofensas e hoje se orgulha de ver a gente criando e seguindo nossos caminhos.

2. Muito ódio é espalhado na internet, atrás do computador todo mundo tem coragem de falar o que quer, você já recebeu algum tipo de ameaça séria por ser uma ativista negra?

Muitas. Ameaça de estupro, agressão e ofensas muito fortes como: “Você é uma preta feia volta para África sua macaca”. Coisas desse nível que as pessoas falam por trás de perfis fakes. Muita gente critica o “ativismo de sofá”, mas é fato que tudo que é feito nas redes sociais tem impacto fora dela. O que aconteceu em relação a peça de teatro “A Mulher do Trem” foi exatamente isso. Eu realmente acredito que as agressões também precisam ter uma resposta real, já cheguei a fazer Boletim de ocorrência, mas na delegacia fui muito mal atendida. As pessoas que deveriam investigar já te desmotivam e dizem que não vai dar em nada, eu realmente queria que esse debate avançasse afinal vejo pessoas sendo agredidas diariamente em redes sociais, e isso tem um impacto na sua vida, eu comecei a ter muito medo e até me sentir deprimida diante de muita coisa que aconteceu.

3. Se a gente olhar e fazer um geral sobre a presença do negro nas Universidade Brasileiras, o resultado vai ser bem triste. Lembro que na minha turma mesmo (fiz publicidade e propaganda) só tinham 4 negros na sala, incluindo eu (Alô, Universidade Católica de Brasília). Imagino que o curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC de Campinas seja a mesma coisa. Como é a militância nesses cursos que são majoritariamente brancos?

A militância é solitária e muito reprimida. Eu acredito que precisamos de muita força psicológica, lembro até hoje das formas como fui agredida e não sei de onde me veio tanta força, eu realmente prego que estou na luta por poder ser fraca. Poder fazer uma faculdade e não ser a única formanda negra de 140 pessoas. A nossa vivência, vida e as nossas realizações ainda estão no campo do extraordinário pois nossa vivência no espaço universitário não é naturalizada. Enfim, somos exóticos na universidade ainda mais em cursos elitistas. Muitas pessoas tem a ideia que cursos elitistas são apenas medicina, engenharia e direito. Quando na verdade os cursos de “criação”, os cursos dos “artistas”, são absurdamente elitistas e o meio pós faculdade é absurdamente elitista e branco. Quebrar a ideia da “genialidade da criação” como algo apenas de brancos, em sua maioria homens, foi o que tentei questionar nos cinco anos de curso por isso fui atacada de forma tão agressiva com direito a mensagens, armário pichado e uma reunião promovida pelo centro acadêmico em que fui filmada enquanto era questionada pelos outros alunos.

4. Desde pequena me entendia como Negra, mas a gente vai passando por um entendimento mais profundo do que é ser Negro só mais tarde, porque nos tiraram isso. Na minha escola por exemplo, ninguém nunca se aprofundou direito sobre Zumbi ou Dandara, ou também nunca discutiram sobre a importância étnico racial do Brasil e então, nós crescemos e nos informamos, e cada vez mais vejo mulheres jovens negras desenhando e mudando essa realidade. E então partindo disso, vem a questão: como é ser um jovem negra em 2017?

Para mim sendo uma mulher negra de classe média é ter um mundo de possibilidades, negros sempre produziram muita muita coisa. Porém em 2017 temos o acesso mais fácil pois a internet possibilita diversas trocas e conexões. Acho que devemos usar isso cada vez mais, inclusive para ter mais símbolos como exemplo de luta, a história negra do Brasil é vasta e se pensarmos em nós como negros da diáspora conectados com outros negros da diáspora podemos ter uma vastidão imensa de coisas, isso sem contar a nossa ligação também como Continente Africano. Eu gosto muito de ver movimentos como o dos Fashion Rebels em Pretória e ver vídeos da Cecile Emeke. Tudo isso não impossibilita que eu pare e leia um artigo da Virgínia Bicudo uma intelectual negra que ainda não é tão comentada quanto outros intelectuais negros brasileiros. Faço o recorte de classe, pois não podemos esquecer que a maioria das mulheres negras e jovens negros vive uma realidade de pouco acesso. O número de adolescentes grávidas é, por exemplo, muito maior entre as negras. Então usar os espaços, a mídia, as redes sociais para se informar e falar sobre o racismo no Brasil é o mínimo que podemos fazer tendo em vista que estruturalmente o racismo ainda nos silencia, impossibilita e mata.

5. A auto-estima transforma a gente, a nossa auto-estima é o nosso potencial. Meus pais, principalmente meu pai, foi uma pessoa essencial na minha transformação, por ser negro e etc., mas quando criança eu tinha muita vergonha do meu cabelo, fiz chapinha e tudo mais, por mais que eu tivesse essa afirmação que não tinha nada errado comigo, lá fora, no mundo real, era outra coisa…Hoje em dia tem um monte de mina incrível — pessoas que seguimos e temos como inspiração — que com certeza estão mudando e melhorando a auto-estima das meninas. Hoje garotas mais novas entendem que o problema do racismo está no olhar do outro e não nelas, que precisam entrar num padrão branco. Como foi a sua infância e adolescência sendo uma menina negra?

O racismo funciona de uma forma que 90% das crianças negras acreditam que não são bonitas, não são capazes, que seus cabelos são horríveis, que é “normal” ninguém querer fazer a foto de casal da festa junina com você, que se seus coleguinhas virem seus pais negros vão zoar a cor escura deles. Eu tinha tanta vergonha e nojo de mim e do meu corpo, que tinha épocas que eu fugia das fotos e que me esfregava mais forte no banho. Assim como teve épocas que eu tive vergonha de ter avós, tios, primos negros e queria esconder a todo momento isso. Eu lembro de uma vez que eu tinha que ir na aula de basquete e que eu fiquei na frente do espelho tentando esconder meus seios, pois eu tinha nojo dos meus seios, já que os meninos diziam que meu corpo era ok, mas meu rosto era um lixo. Então eu pegava fita e passava para esconder pois eu não queria chamar atenção. Quando eu chamava atenção eu era zoada. Eu me odiava e nem sabia. Eu aos 7 fiz meu primeiro relaxamento e minha frustração foi que o volume do meu cabelo continuava. Eu nunca tinha usado meu cabelo solto até os 15 anos quando fui obrigada pois eles estavam caindo e eu ficando com “entradas”. Lembro que pós relaxamento eu tive coragem mesmo criança de usar ele solto na escola e foi o dia mais infernal da minha vida. As piadas, os apontamentos, os apelidos, os olhares, eu com 7 anos corria para o banheiro e ficava molhando. Pois molhado ele não tinha tanto volume… Minha mãe, meus avós e tias diziam que eu era linda, mas eu NUNCA acreditei. Aos 14 anos eu entrei num concurso de beleza porque eu me achava tão feia que minha mãe achou que se eu fizesse um book eu acreditaria que era bonita. Eu fiz um book e tive vergonha de ver as fotos, quando chegou eu precisei de um momento sozinha para abrir e ver as fotos já que eu pensava que estariam todas horrorosas. Eu me achava feia, os garotos me chamavam de feia, ninguém queria ser “meu namorado” ou até mesmo ficar comigo, eu fui perder o “bv” no segundo ano do ensino médio, as pessoas falaram tanto que eu era feia que eu acreditei. Quando vi as fotos me assustei, eu era linda. Eu sempre choro pensando nisso, eu sou e eu era muito muito linda, mas as pessoas me fizeram acreditar no contrário. E mesmo hoje ainda tenho que lutar para reconstruir a autoestima, não é só sobre estética, é sobre ter acreditando que eu era o que os outros diziam: um lixo. Então nas redes sociais muitas pessoas veem o que você quer mostrar, no fundo eu não superei tudo isso. Ainda dói e a possibilidade de me sentir rejeitada, me causa ansiedade e medo. É todo um processo inclusive de procurar ajuda profissional que possibilita realmente que a gente reveja essas histórias mentalmente e não se sinta culpada por elas.

6. Ocorreu aquele fato com a Azelia Banks, (Vocês deem um google aí, tá?) mas o que todo mundo não vê, é que primeiro os Brasileiros foram lá e ficaram xingando ela da pior forma, foram racistas. Você fala pra gente sua opinião sobre isso?

A Azelia é muito usada pela mídia para reafirmar o imaginário racista da negra raivosa, eu discordo muitas vezes dela e das suas atitudes, porém dificilmente não há racismo no tratamento midiático e até das pessoas não negras em relação a ela. O que mais me preocupa nessa caso foi o jornalismo que só compartilhou as respostas dela, que tinha um teor que eu realmente não defendo, mas que era resposta ao racismo. Nem sempre respondendo ao racismo fazemos textos simpáticos, o uso da raiva faz parte desse processo como Audre Lorde escreveu. A responsabilidade desses veículos com a questão racial se mostrou nula, na ânsia de gerar compartilhamentos veículos nacionais compartilharam que ela era uma desequilibrada. Sem ao menos checarem o fato dela ter sido agredida primeiro por brasileiros de forma racista. Só contar um lado da história é recorrente, tanto que a Chimamanda Ngozi Adichie denuncia exatamente o perigo da história única. Estamos falando de veículos de mídia com influência, reproduzindo coisas que atingem diretamente negros coletivamente pois o mito do negro raivoso, principalmente da negra agressiva diariamente nos persegue. É só um negro se comportar de uma forma que a branquitude não espera e já somos “agressivos” que não “sabem o seu lugar”, reafirmam padrões racistas sem nem checar a história é alimentar a estrutura racista.

7. Agora falando um pouquinho de música, sei que você adorou o último trabalho da Solange. Do que gostou mais?

Escrevi sobre esse álbum, adoro mesmo a forma como Solange canta sobre situações triste e racismo com una melodia que acalma. É para mim um álbum terapêutico, eu me sinto bem, ao mesmo tempo que sei que numa sociedade racista nunca podemos deixar de falar nisso. E falar sobre racismo não é só literalmente escrever ou falar sobre, acho que esse álbum também diz muito sobre isso.

8. Vejo o Grammy como um prêmio bem problemático na hora de premiar obras feitas por negros. Em 1992 ganhou a Natalie Cole, em 1994 a Whitney Houston, em 1999 a Lauryn Hill, a Beyoncé ganhou como melhor clipe e a Solange também foi premiada, mas o número ainda é baixíssimo, né? Como você vê essa situação (eu já sei e você também, mas como tem bastante branco lendo, é bom frisar).

Racismo é mais fácil criar uma categoria para premiar negros como “urban” do que dar a eles os prêmios de maior prestígio sempre que eles tiverem o trabalho de maior prestígio. A Taylor Swift é reconhecida pelo Grammy mais do que artistas como Kendrick Lamar e até a própria Beyoncé quando analisamos o número de Grammys dentro das categorias importantes. Eu realmente acho frustrante como negros colaboraram e colaboram para o meio artístico musical e são severamente punidos como essas premiações, apropriações e até mesmo o esquecimento na miséria. No Brasil não é diferente quando os grandes nomes da MPB, Samba e até mesmo Axé são associados a pessoas não negras, mesmo com a enorme contribuição de negros e até mesmo criação desses ritmo.

9. Você conhece sobre a literatura negra? Gostaria de indicar alguns nomes aqui?

Não gosto do termo literatura negra, assim como não gosto de cinema negro, etc. Tanto que o Grammy criou una categoria para premiar negros, ao invés de dar aos negros os prêmios que eles realmente merecem. Na literatura tudo que vem de negros é tido como “Marginal” eu entendo que muitas pessoas veem uma ressignificação positiva nisso, mas no fundo a branquitude ao mesmo tempo que nos usa como referência nos encaixa sempre abaixo. Na literatura negros escrevem livros fantásticos, muitos que nem falam sobre racismo diretamente e são muitas vezes negligenciados por grandes editoras e até mesmo não remunerados pelo seu trabalho. Leio de Toni Morrison, Chimamanda, Carolina Maria de Jesus até Edwidge Danticat uma haitiana pouco publicada no Brasil. Acho que ler mulheres negras e negros em geral, me ajuda a pensar nas nossas narrativas e como elas se assemelham em muitos fatores por conta da estrutura que o racismo é.

10. Por fim a última, dá uma dica pra quem está lendo essa entrevista?

Procure usar seus privilégios para obter conhecimento, é conhecendo os outros nas suas subjetividades e singularidades que poderemos realmente exercer empatia e construir uma sociedade menos desigual. Por isso sempre indico: leiam mulheres negras, vejam seus vídeos, leiam seus artigos, busque se informar sobre o grande leque de coisas escritas e feitas por mulheres quem nem estão mais entre nós.
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