17.10.2016

Eu penso que se um dia tiver filhos vou ficar olhando o bebê dormindo pra garantir que ele está respirando, dizem que muitas mães fazem isso, um receio inexperiente de pais de primeira viagem, não sei. Essa atitude um pouco esquisita tornou-se parte de mim durante alguns dias nas últimas semanas. Na cadeira dura ao lado da maca na enfermaria, eu olhava fixamente a coberta xadrez da vovó subir e descer, bem devagar, mas subir e descer, subir e descer. Às vezes levantava também, pra sentir o bafo da respiração, e voltava aliviada pra insônia da cadeira. Não era que tivesse medo de algum acontecimento, o medo era da espera.

Mas a espera às vezes nos proporciona também momentos de alegria, como quando era uma vitória pessoal dar cinco insistentes colheradas de sopa e ouvir ela dizer que estava bom. — Mas quando você for almoçar no refeitório leva o sal, viu? E piscava o olho. Momentos de carinho e mãos dadas. Momentos de visitas de amigos. Momentos de sonhos, de plantinhas, de sorrisos. Uma semana e meia intercaladas de convivência em um lugar tão pequeno e apertado, tão escuro e metálico, impessoal e tenso, poucos dias, pouco tempo e, meu deus, vó, coube nossa vida inteira juntas lá dentro, te juro. As farras na cozinha, o pé-de-moleque, os restos de tecido de costura, o seu cabelo lisinho que eu penteava, o ponto-de-cruz que nunca tive paciência de terminar, o biscuit, as suas aventuras no internato, o vovô, a bacia metálica de tomar banho quando éramos pequenos, os voos de mãos dadas pra Brasília, tava tudo lá dentro. A casa 13 no leito 13. Tudo cabia porque a senhora mesmo ficando magrinha só ia se expandindo cada vez mais por dentro e tava tudo lá. E eu emprestava um pouquinho de mim também e a gente se apertava e se encostava e cabia nesse cubículo todo esse amor e todos esses nossos momentos juntas. E a gente sabia disso.

Vovó nos deixou nessa segunda. Esperou meu pai chegar, esperou a comemoração do meu aniversário passar e escolheu um dia semi-feriado cheio de Sol e de vento para se deixar ir. Não acho que tenha sido sem querer, acho que ela escolheu mesmo. Deixou-me um lindo par de broches que usava quando solteira com suas iniciais cuja existência eu desconhecia, deixou-me ainda um presente de aniversário, o mesmo que me dava todo ano. Não esqueceu de nada, nem de ninguém.

Vó, eu também não vou esquecer do seu último pedido e vou achar um anel de elefante pra você igualzinho ao que eu usava anos atrás, falamos tanto dele nas últimas semanas. Vou comprar com o dinheiro do presente de aniversário que você me deu. A senhora até poderia estar aqui comigo pra ver o anel, dizer que ele é bonito, agradecer e logo depois emendar: — Fica pra você. Então eu vou me dar o luxo de já ficar com ele, vó, tá bem? E assim nunca esqueço da senhora. Nunquinha.

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