Dia útil

Um acordar que não quer acordar. Assim começa meu dia e me pergunto agora se não é assim com toda a gente. As únicas situações em que me lembro realmente querer acordar eram nos dias de passeio pro hotel fazenda na escola. Levantava ansiosa e ficava horas no espelho tentando me convencer de que minha barriga não estava grande o suficiente para que os meninos me vissem na piscina, de biquíni. Mas eu ia. Agora também eu vou e levanto. Ainda que com preguiça de sair da cama, vou e me olho no espelho. Não acredito bem no que vejo, um incômodo em não saber o que fazer direito com aquele corpo refletido. Hoje não há passeio no hotel-fazenda. Certos compromissos para levar uma mínima rotina me auxiliam depois que saio do espelho. Xixi, lavar a boca, passear com lola, às segundas pilates, terças na pós. Marco reuniões para preencher as horas e usar minhas roupas de sair. É importante pro reflexo no espelho que use essas roupas com certa frequência, antes que tomem o cheiro amarelado do guarda-roupa. A todo momento um alerta para não desanimar: escute música, arrume a cama, a casa, faça listas. Às vezes eu só quero ouvir Raça Negra, mas é como se não devesse. O dia corre e eu preciso correr junto. Cada segundo tem que ser um aprendizado, cada cheiro uma inspiração, cada olhar uma conclusão. Tomar banho ajuda, mas já me tem angustiado algumas vezes, quando paro pra pensar se o pensamento vale cada água quente desperdiçada que deixo correr por meu corpo nu por longos minutos. Eu sempre tenho coisas a fazer e as pessoas acham engraçado — como? Que tanta coisa é essa que não se nomeia? Muitas coisas e ninguém acredita, uma vez que não tenho 'emprego'. De vez em quando eu não gostaria de me envolver nas coisas dos outros, mas eu me envolvo, sempre. Eu gostaria inclusive de um final de semana sem compromissos sociais. Ou melhor, sem ter que dar desculpas esfarrapadas só porque o outro pode ficar chateado se eu disser: eu não vou no seu evento porque vou sair comigo mesma. De uns tempos pra cá eu não culpo nem insisto mais com ninguém que falta aos eventos sociais.

O dia já está passando por mim e eu ainda com esse moletom preto cheio de pêlo da Lola. Hoje poderia, mas não tem reunião. Cada ação é motivada muitas vezes apenas por um riscar da lista de afazeres. Mas tem certos itens que parecem que estão gravados em pedra. E pior ainda são os itens que não tenho coragem de pôr lá. Tem alguns, mas não muitos, eu até que consigo ser bastante sincera comigo. De vez em quando paraliso, mas já criei mecanismos pra driblar isso: lavar a louça ou brincar com a cachorra. Me sinto bem e assim não tem tempo perdido, eu nunca paro. Mas hoje acordei querendo ficar gripada e isso talvez prejudique as coisas. É tão engraçado dizer que "tá querendo algo" para dizer exatamente o oposto. Ou não?

Tem uma frase do Erasmo de Rotterdam que diz assim: "a felicidade só é alcançada quando a pessoa está pronta pra ser o que ela é." Eu tenho tentado descobrir quem eu sou, o que eu gostaria de construir. A gente pensa sempre que poderia fazer certas coisas. Eu poderia abrir um café e passar meus dias servindo as pessoas e gerenciando um negócio. Eu poderia virar fotógrafa e fazer um projeto pelo interior do país. Eu poderia entrar numa multinacional e viajar todo mês pra São Paulo em longas reuniões. Todos os poderias são reflexos que enxergo no espelho. Daí viria agora aquele papo que tá na moda, diz que o mundo é cheio de possibilidades, daí todo mundo se identificaria e nós ficaríamos nesse papo e certamente alguém utilizaria a palavra coaching no final de uma frase. Mas a verdade é que não quero falar sobre isso. A verdade é essa que se apresenta pra mim, aqui e agora: primeira segunda-feira do mês, a manhã já passou e mandei alguns emails, fiz uma lista de créditos de um filme que estou devendo de um antigo trabalho, reguei o cogumelo que planto numa caixinha de papelão, já sinto o cheiro da comida do almoço mas não consigo identificar ainda qual é, a trilha do Spotify misturada com o jornal da TV ao fundo que parece contar as mesmas notícias. A verdade é que estou num estado de alerta contínuo, que vejo e reparo no movimento das pessoas no bar e no metrô, que procuro buracos por aí pra ver se consigo encaixar minhas pernas compridas, que me permito falar em voz alta pra ver apenas como meu som propaga no ar. Mas não sei ainda se busco um sinal redentor ou se quero é que enxerguem minhas mãos gesticulando loucamente.

O dia útil segue, tem que seguir. De vez em quando eu me forço a lembrar de coisas que fiz sem saber que estava fazendo e que posteriormente viraram um legado, um aprendizado, um portfólio pessoal. Pode ser que esteja fazendo isso nesse longo ano e ainda não tenha dado conta. Lembrar disso ajuda a me motivar, outra palavra detestável no vocabulário do empreendedor brasileiro. Hoje não teve reunião, amanhã talvez tenha ou eu apenas encontre algum amigo pra tornar mais leve essa história de produzir a própria vida, o tempo todo. Enquanto isso, ainda muitas coisas pra fazer (mas acabo de riscar da lista o 'escrever uma vez ao dia').

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