Relato de parto: Amanda e Luana

“Quando você dá atenção ao começo da história, ela pode mudar por inteiro”. — O Começo da Vida

A minha preparação para o parto começou quando decidi fazer um curso de doula. Eu sou daquelas pessoas que gosta de saber… embora hoje eu saiba que parir não é uma questão de informação somente, mas de sentir e intuir. Fiz o curso com 33 semanas e ainda não havia escolhido uma doula. No decorrer das aulas, tive certeza que ter uma doula seria importante para que eu me preparasse para o parto que eu queria: um parto normal, sem muitas intervenções — nessa altura eu ainda não pensava sobre o parto natural (sem analgesia). A missão de conseguir uma doula não foi tão fácil quanto eu imaginava; algumas doulas mais experientes não trabalham com médicos que não conhecem e que não tenham o “selo” da humanização.

O mais bacana no processo de busca foi o meu fortalecimento. Eu tinha certeza que queria seguir com o meu médico e que era muito importante ter o acompanhamento de uma doula, pois escolhi o parto hospitalar e o plano era chegar lá em franco trabalho de parto. Tive a felicidade de contar com o apoio de duas pessoas que não se conheciam (meu médico e minha doula) e que, apesar de não formarem uma equipe já estabelecida e seguirem linhas diferentes, foram extremamente flexíveis e cuidadosas comigo.

Agora vamos ao que interessa… meu relato de parto! Eu comecei a sentir as contrações na madrugada do dia 31 de janeiro para o dia 01 de fevereiro de 2017. Nós estávamos com 40 semanas e 5 dias e diariamente eu respondia a uma enxurrada de mensagens de parentes e amigos informando que Luana Morena ainda não havia chegado. Pois bem… as contrações da madrugada vieram fracas, mas foram suficientes para que eu não conseguisse dormir bem.

Aproximadamente às 6h da manhã eu acordei o meu marido e pedi para ele não ir trabalhar. Já havia sentido contrações de treinamento, mas algo me dizia que desta vez era diferente e que o trabalho de parto iria engrenar. Mandei também uma mensagem para a minha doula e ela me orientou a tomar um banho, comer e tentar dormir um pouco. E foi o que fiz — bati uma tigela de açaí e consegui dormir até às 11h, quando as contrações se intensificaram. Nesse momento, a bolsa de água quente virou a minha companheira inseparável, melhor amiga desde sempre!

Aproximadamente às 12h a minha doula chegou em casa e começamos com os exercícios na bola, um pouco de massagem e, principalmente, muita bolsa de água quente e pressão na lombar. Lá para as tantas eu e meu marido fomos para o chuveiro, mas a água não surtiu muito efeito para mim. Ficamos uns 10 minutos, mas eu quis voltar para a bolsa quente.

Coincidentemente, neste dia eu tinha uma consulta marcada às 17h30. Avisei o médico sobre o início do trabalho de parto e que iria na consulta para que ele avaliasse se eu deveria ir para a maternidade. Essa foi a parte que o universo conspirou, pois o timing foi perfeito. Entrei no consultório e fui colocada em uma sala separada, já que estava em pleno trabalho de parto. Um joelho, dois joelhos no sofá e SPLASH… a bolsa estourou! Nesse momento fizemos o primeiro exame de toque e veio a surpresa: apenas 2 cm de dilatação. Havia também um pouco de mecônio, mas surpreendentemente, aquilo não me tirou do prumo, pois sabia que a bolsa rota iria acelerar o trabalho de parto.

Saímos do consultório para a maternidade, da Vila Mariana para a Avenida Paulista. Seria um trajeto rápido se não tivesse caído um baita temporal e se não fosse 18h, pico do trânsito na região. Faróis quebrados, trânsito, trânsito, trânsito… minha melhor amiga “bolsa d´água” começou a ficar muito fria comigo… nada aliviava a dor, não havia posição confortável. Só dor, muita dor. Nesse momento eu me lembrei do curso de doula: devia me manter no meu mundo interior, concentrada no meu corpo. Fui quase todo o caminho de olhos fechados.

Quando chegamos na maternidade fiquei 30 minutos fazendo o monitoramento da bebê. Muita vontade de vocalizar, muita dor, me contorcia… finalizado o exame, fui examinada pelo plantonista e voilá: 7 cm! Quase não acreditava… durante o caminho, fomos de 2 cm para 7 cm. Nesse momento sussurrei para a doula que estava no meu limite e que pediria analgesia. Ela falou a melhor frase, no melhor momento: “Amanda, não vai ficar pior que isso. Você já passou pelo mais difícil”. Eu confiei totalmente no que ela disse e quase como num passe de mágica, uns 5 minutos depois, comecei a sentir o “puxo”, a famosa vontade de empurrar. Fui encaminhada para a sala de parto: elevador, vontade de empurrar; corredores, vontade de empurrar; sala de parto, mais vontade de empurrar…

Chegando na sala de parto estávamos somente eu e uma enfermeira. Ela segurou a minha mão e ficou do meu lado. Meu marido e minha doula estavam trocando de roupa e, pouco a pouco, a sala foi ficando mais cheia e também mais confusa… Lembro de repetir como um mantra para as sucessivas sugestões que ouvia da equipe de enfermagem: “Calma. Me dá um minutinho”… topei uma chuveirada e fiquei 5 minutos com o meu marido, mas a sensação era que a bebê nasceria ali mesmo, comigo em pé.

Voltei, deitei na maca. Sugeriram uma posição que eu não queria e neguei. Nesse momento estava com uma médica da equipe do meu médico. Ele ainda não havia chegado, pois estava preso no trânsito! E ele chegou faltando 10 minutos! Chegou, organizou a maca, me ajudou a ficar numa posição confortável, deu orientações sobre a respiração e a força, pediu para o meu marido me apoiar nas costas. Nesse momento, eu confiei totalmente nele! Ele me dizia: “Amanda, você foi sensacional! Continue assim”! Foi o gás que eu precisava para colocar toda a força do mundo. Foram uns cinco empurrões até a cabecinha dela sair. Mais uns dois e vieram os ombros… E foi aquele alívio incrível, junto com uma sensação de incredulidade! Lembro de pensar: “Como eu consegui isso”? Sem analgesia e com o períneo íntegro! Colocaram a Luana em cima da minha barriga assim que ela nasceu. As minhas primeiras palavras foram: “Meu Deus, meu Deus, meu Deus”… E depois: “Nossa, como ela é peludinha”!

E assim foi o parto da Luana Morena! Uma prova do (a) Deus (a) em mim. Uma prova do milagre da vida. Uma prova de que mulheres sabem parir e bebês sabem nascer. Uma prova de que vale a pena construir relacionamentos e pontes, de que vale a pena estabelecer parcerias com pessoas com ideias diferentes entre si. Que uma equipe é mais valiosa na medida de sua diversidade. Uma prova de que vale a pena confiar e de que a mudança, por menor que seja, é muito melhor pelo caminho do amor, do diálogo e da consciência.

É claro que nem tudo foram flores: em um momento me ofereceram analgesia, o cordão poderia ter ficado um pouco mais tempo sem cortar. Mas o balanço foi extremamente positivo! O amor que senti por aquele momento e pelas pessoas que me ajudaram foi imenso. A gratidão por ter buscado esta consciência, por ter escolhido e me permitido viver este momento e por ter sido apoiada por essas três pessoas será eterna! Obrigada, Paulo, meu parceiro de vida; Felipe, meu médico e Daniela, minha doula! Minha eterna gratidão a essas pessoas tão diferentes entre si e tão únicas na forma como me apoiaram!