… é ser mais como eu e menos como você. Meu adeus a Chester Bennington

Amanda Borsonello
Jul 22, 2017 · 4 min read

A adolescência pode não ser uma fase fácil na vida de muitas pessoas. E esta afirmação vai muito além da caricatura que se faz do adolescente chato, quando passamos por alguns anos entre a infância e a vida adulta, cheios de hormônios, cobranças e tentando nos encaixar, o que faz com que a combinação vire um caldeirão e, via de regra, nos tornamos realmente difíceis de conviver.

Quando eu digo isso, falo por mim e provavelmente para algumas pessoas que vão se identificar em algum nível com esse relato. Na minha vida, a adolescência foi como passar por um furacão de sentimentos. Muitas vezes de sofrimento.

Em algum momento, eu havia me dado conta de que eu tinha deixado de ser a menininha admirada por ser comportada em casa, estudiosa na escola e carinhosa com a família e as amiguinhas, pra me tornar uma pessoa estranha. Tudo que eu dava valor, parecia ter virado motivo de chacota para os outros adolescentes que me cercavam. Comportada, estudiosa e carinhosa ganharam novas interpretações e eu me olhava no espelho e via uma adolescente desinteressante, boba, muito feia e que não se encaixava.

Não pense que este texto pode parecer o roteiro de um filme de sessão da tarde em que a adolescente impopular fica com o capitão do time no final. Não me encaixar causava um enorme sofrimento. Mesmo. Eu me sentia incompreendida em casa com as diferenças de expectativa do que eu pretendia ser e do que queriam meus pais. Eu sofri bullying na escola e tinha muita raiva e mágoa das pessoas que faziam isso comigo e com outros colegas.

E tentei me defender de várias maneiras. Ensaiei fazer coisas que não queria só pra me encaixar, chorava sozinha no quarto, brigava com minha mãe. Mas o que realmente me mantinha em pé, era entrar em contato comigo mesma e pensar: esta que eu sou está certa e isso vai passar. E passou. E pra chegar à universidade sabendo o que eu queria e gostando muito de mim, três fatores de autoconhecimento foram fundamentais na minha adolescência: os livros que eu devorava, um atrás do outro, os diários que eu escrevia e ponderava a vida, uma página e uma noite de cada vez, e músicas que me ajudaram a compreender que eu não estava sozinha.

Foi em 2003, no alto de meus 16 anos, no segundo ano do ensino médio, um dos anos mais difíceis que já tive nesses 30, que ouvi Numb pela primeira vez. A MTV era nosso Youtube e nossa salvação. O clipe, mostrava uma menina, mais ou menos da minha idade, que não se sentia compreendida e que se sentia tão sozinha. A letra começava dizendo: “estou cansado de ser tudo que você quer que eu seja”, e o cantor berrava aos quatro cantos: “tudo que eu quero é ser mais como eu e menos como você”. E assim eu conheci o Linkin Park e descobri que eu poderia ser diferente de tudo aquilo que eu achava errado e que eu sairia vencedora daquela fase difícil se eu acreditasse em mim.

A música Numb foi um apoio, uma terapia. Eu cantava pra me autoafirmar, pra me defender. Eu colocava no aparelho de som, no computador, fechava a porta do quarto e berrava “but I know, you were just like me, with someone disappointed in you”, a cada vez que me sentia ferida por alguém. Muitas vezes eu cantava e chorava e só eu sei o quanto foi importante pra mim.

Junto com essa, vieram tantas outras músicas memoráveis da banda. Chester Bennington fazia letras doces e as cantava com a raiva de quem se perguntava: vocês não conseguem enxergar isso? Ainda hoje, algumas vezes por dia eu ecoo essa pergunta dentro de mim nas mais diversas situações.

Em Somewhere I Belong, eles cantaram “And I let it all out to find that I’m not the only person with these things in mind”. Em Crawling, admitiu, “Fear is how I fall”. E em In the end, eles afirmaram “I had to fall, to lose it all, but in the end it doesn’t even matter”.

Muitas vezes, quando casos como o suicídio de artistas como Chester acontecem, eu pondero e, apesar de lamentar muito, quase entendo que um mundo como o nosso deve ser muito difícil de aguentar pra pessoas tão sensíveis assim. Tão expostas.

O álbum Meteora pulou de mídia em mídia todos esses anos comigo e ainda está aqui, hoje faz parte da minha lista no Spotify. Eu sou muito grata à banda e ao Chester por compor e cantar de uma forma que ficará marcada pra sempre na minha vida. Sou uma pessoa melhor porque tudo que aquelas pessoas erradas pensaram que eu seria, se despedaçou bem em frente a elas e que eu sei que, no final, nada disso realmente importa e que eu posso terminar falhando também.

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Jornalista por formação, autora mirim de diários e rimas, pretensa escritora de tudo aquilo que se é bonito compartilhar.

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