Essa saudade que eu sinto de tudo que ainda não fui

Imagem: Tumblr Mulher de Preto

Eu não demorei muito, provavelmente menos de uma década de vida, para conhecer um sentimento tão complexo quanto inexplicável e que, até onde sei, nunca sequer foi nomeado. Mas já havia cantado o poeta, era como “a saudade que sinto de tudo que ainda não vi”, exceto que, no meu caso, eu sofria de “a saudade que sinto de tudo que ainda não fui”.

Quando lembro de mim com aquela idade, pensando nessas coisas, acho estranhíssimo. Na época, peguei algumas referências espíritas que eu ouvia da família do meu pai e me classifiquei como “uma alma antiga presa no corpo de alguém tão jovem”. Melancólico e dramático, como sempre fui.

E assim, a minha “saudade do que ainda não fui” ficou em mim. Adolescente, esse sentimento foi combustível daqueles anos decisivos em que a gente se prepara pra ir atrás de virar aquilo que se queria ser quando crescesse. E eu só queria ser aquilo tudo que eu ainda não tinha sido, mas já tinha saudade. Era uma sina e eu me perguntava: como ser?

Decidi apostar minhas fichas nos passos seguros e, segundo aprendi, corretos, da educação e do trabalho. Além de outras distraçõezinhas: entrar na faculdade, ficar cada vez mais loira, mudar de cidade, tomar meus porres, arranjar um emprego, testar teorias e não acreditar em nenhuma, testar beijos e não encontrar amores, mudar de emprego, ganhar melhor.

E ganhar um pouco mais, encontrar o amor, guardar todos os beijos pra ele. Pegar o diploma, planejar o próximo, mudar pra cidade gigante dos sonhos de infância. Morar sozinha, morar com ele, planejar uma viagem, ter uma casa!

Eu passei pelos vinte e nem percebi, mas o pensamento continuava: devo estar muito perto de ser aquilo que eu já sentia saudades.

Vinte e poucos, vinte e muitos, vinte e tantos. Quantos? Minha testa já está marcada. São rugas? Como podem ser, se eu ainda nem descobri como ser aquilo que eu ainda não fui?

Na última, das minhas já três décadas de vida, os fantasmas do meu quarto se mudaram para o meu corpo. Essa existência passou a me parecer tão frágil que as consultas aos médicos, os exames e os check-ups não eram suficientes e não conseguiam me convencer de que estava tudo bem.

A expectativa do “ainda vou ser” o que “ainda não fui”, só me dizia que algo estava errado e não me deixou perceber que eu já era muito.

Ser, simplesmente, ser por completo.

Foram precisos muitos momentos sozinha, músicas dramáticas, livros da Clarisse, horas de terapia e o amor dos que estão comigo pra eu entender que, aquela que ainda não fui, é isso tudo que sou e que, desde menina, está dentro de mim. Esse sentimento que me perseguiu era só a falta que eu tinha de me deixar ser quem eu era. Eu sou.

E que escrever assim, é como dar um abraço bem apertado naquela pessoa por quem eu passei tantos anos esperando encontrar… e de quem eu estava com muita, muita saudade.

Com amor, Amanda.

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