Vidas filtradas, guerra de Egos

"Ser ou Não Ser" está fora de moda, não faz mais sentido em meio as nossas valiosas conexões sociais. O mote atual que rege o cotidiano agora é "Ser ou (a)Parecer. Eis a questão". E quase sempre o parecer retém mais status, é mais atrativo e honrado que o simplório ser… uma batalha injusta com um vencedor desonesto. Taxado de ingênuo e irrelevante é aquele que escolher o ser, "coitado" — pensam eles — "não é ninguém". Que paradoxo! Afinal, aquela incômoda voz velada no subconsciente não pára de sussurrar: "Não adianta nada ser, se ninguém vê."

Parecer é mais fácil. Produza o ambiente, arrume os objetos, esconda qualquer bagunça, deixe o cabelo perfeito, a maquiagem impecável, pose para a foto, não esqueça o sorriso, o melhor ângulo, pose novamente — tem que ser perfeito, aplique aquele filtro, quem sabe aquele outro, edite mais um pouco, não esqueça de branquear os dentes, só mais um ajuste de cor e, pra finalizar, aquela legenda impactante para todos te acharem bem intelectual e não perceberem que, na verdade, você só está preocupado com você mesmo. Publicado. Pronto! Notificações cheias de likes e corações decretam que você está no caminho certo para, finalmente, ser notado.

“‘Que grande inutilidade!’ , diz o Mestre. ‘Que grande inutilidade! Nada faz sentido! Tudo é vaidade.” Eclesiastes 1:2

Ah, esse Ego! Vive chamando atenção para si mesmo, todos os dias, o tempo inteiro. Vive preocupado tentando preencher o vazio e a falta de identidade com a comparação alheia e a vanglória. No desesperado desejo de se sentir amado, o orgulho escolhe o caminho mais fácil do (a)parecer e nos torna competitivos. "Afinal, ele não se satisfaz em ter uma coisa, mas em tê-la em quantidade maior do que os outros" (C.S. Lewis). E dessa forma fingimos ser quem não somos, fazemos o que não gostamos, escolhemos o que não queremos, nos tornamos dependentes dos filtros e dos likes, adotamos máscaras. Escolhemos ir/fazer/comprar/mudar/gastar/comer/beber/viajar não pelo prazer, mas para impressionar. Planejamos cada foto, cada vídeo. Espontaneidade? Um pouco arriscado. Anonimato? Nem pensar! Esse ego é insaciável, um buraco negro, nunca estará satisfeito. Correremos para sempre atrás do vento, buscando uma felicidade que sequer temos certeza que alcançaremos.

E o ser? Nessa correnteza de egos e filtros o coitado foi deixado de lado. Afinal, quem se sentiria atraído pelo meu verdadeiro eu com minha rotina entediante, problemas e olheiras? O ser não é prioridade. E dessa forma vivemos em uma esfera superficial e ilusória, irrigada por distúrbios morais.

Ponto final? (ainda bem que) Não! Existem os corajosos e revolucionários: os "coitados que não são ninguém". Estes raros escolhem o caminho mais difícil. Assim como Paulo(1 Cor 4:3,4), eles não se importam com o que os outros pensam deles, nem mesmo o que eles pensam de si próprios. Não se importam com a opinião alheia e não dão ouvidos ao seus egos. Não fazem de tudo para aparecer, para agradar quem sequer conhecem ou para se sentirem amados, porque sabem que são filhos amados do Pai — e isto basta.

Paulo não buscava sua identidade e sua autoestima nos outros e não confiava nele mesmo. Ele não esperava o veredito humano de que ele era "alguém". Sua identidade não estava em "likes", selfies e aplausos, mas em Cristo. Disse ele: “Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.” (Gálatas 2:20) Ele conheceu a humildade que só vem do Evangelho, a humildade que mata a necessidade de pensar no eu. Ele aceitou a liberdade que vem do autoesquecimento.

"E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado." Mateus 23:12
"Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que Ele os exalte no tempo devido." 1 Pedro 5:6

Que assim como Paulo, eu não queira (a)parecer, mas ser. Ser uma ninguém, liberta das máscaras e dos filtros, do grito ensurdecedor do meu ego, livre para viver a vida de Cristo na certeza do amor de Deus. Que eu não busque validações, likes, glórias e honras humanas. Que o meu foco não seja mostrar o meu eu, mas esvaziar-me de mim mesma para ser serva em humildade e amor.

"Assentando-se, Jesus chamou os Doze e disse: Se alguém quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos”. Marcos 9:35


Reflexão baseada na leitura do livro "Ego Transformado" por Timothy Keller
Foto por Kaique Rocha ·
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