A crise do shimeji

Calma, amantes de comida japonesa: os cogumelos estão a salvo. Não há uma crise de produção!

A crise é minha mesmo. Explico: como uma pessoa que tem certa dificuldade para se definir, escolher minhas coisas favoritas é uma grande batalha. Tipo, meu filme favorito, meu livro preferido e por aí vai. Não sei se é o aquário com ascendência em gêmeos no mapa astral ou se é simplesmente porque gosto muito de poucas coisas e gosto mais ou menos de milhares de coisas, enfim…Mas uma coisa eu tinha certeza: eu adoro shimeji.

Adoro cozinhar, sentir o cheiro, misturar com o gohan (arroz japonês) e me deliciar. Eu geralmente como rápido, mas com shimeji eu levo o tempo necessário para sentir o sabor, a textura e o prazer de saborear algo que eu realmente gosto. Eu me lembro quando “descobri” o shimeji.

Eu namorava um descendente de japoneses e nós fomos a um restaurante de comida japonesa muito bom da cidade, e foi lá que comi pela primeira vez o cogumelo. Alguns dias depois, ao reclamar que eu estava com vontade de comer e não tinha dinheiro para ir ao restaurante de novo, meu então namorado sugeriu de comprarmos e tentarmos fazer em casa mesmo.

“Mas tem onde comprar isso?”

Tinha. Num mercadinho próximo aonde ele tinha aula de japonês. O mercadinho era japonês também. Tudo é japonês nessa história.

Nós fizemos e por incrível que pareça ficou muito bom! Ali, eu soube, começava uma nova tradição: jantar shimeji com gohan. Na época, morávamos juntos e eu contava as horas para sair da faculdade e fazer o jantar sabendo que aquele dia eu comeria o meu prato favorito.

Era de praxe: eu cozinhava, nós dois nos sentávamos na frente do computador, assistíamos um episódio de ‘How I met your mother’ e depois ele lavava a louça.

Quando terminamos o namoro, terminei a faculdade e voltei para minha cidade, fiquei meio frustrada porque o shimeji daqui não era igual. Shimeji tem dois tipos e, enquanto aqui só se servia e encontrava o tipo branco, eu gostava do preto. Demorei para encontrar um fornecedor, mas achei. Às vezes, eu dava sorte e encontrava uma bandejinha esquecida no supermercado. Como em casa só eu gosto disso, eu fazia tudo para mim. Era ótimo.

A crise começou quando eu percebi que eu não estava mais sentindo o mesmo prazer de sempre comendo shimeji. Eu ainda gosto. Mas parece que toda aquela vontade que eu tinha antes de comer e toda aquela satisfação que me dava após a refeição sumiram. Eu fiquei bem em crise, porque gostar de shimeji era uma coisa que me definia (olha a que ponto cheguei). Até minha mãe quando vai me apresentar para os outros, sabe que isso é importante “Essa aqui é minha filha, 24 anos, faz mestrado… e adora aquele cogumelo estranho que não é champignon” (esperar que minha mãe saiba o nome é forçar a barra).

Eu fiquei pensando, será que meu paladar mudou? Será que eu desaprendi a fazer? Será que é a panela, que é diferente da que eu usava naqueles tempos de faculdade? Será que os cogumelos que eu compro aqui na minha cidade são diferentes daquela outra?

Será, será, será… Pode ser que a resposta para todas essas perguntas seja, de fato, sim. E, por isso, acabei perdendo o gosto pelo cogumelo. Ou pode ser que gostar de shimeji fosse muito mais do que apreciar uma comida. Havia muitas coisas envolvidas naquela refeição: era um momento que eu e meu ex-namorado compartilhávamos várias coisas na cozinha, víamos uma série engraçada, conversávamos, ríamos e, claro, apreciávamos uma boa comida. Mas o segredo daquilo tudo ser gostoso não estava no shimeji, na panela e na produção daquela cidade, estava nas pequenas coisas envolvidas.

Hoje, comer um prato de shimeji é algo solitário. Não tem ninguém para rir comigo, para ficar comigo na cozinha ou dizer o quanto ficou bom. Não é algo que me deixa triste (existe uma tênue linha entre liberdade e solidão, né meixmo?), mas talvez um fator decisivo para eu continuar gostando de shimeji.

Posso dizer, com certeza, que shimeji não é mais minha comida favorita. Antes de mais nada, já deixo claro: isso não é um texto amargo sobre estar solteira, terminar namoros blá blá blá. Nem sobre seguir em frente, apenas em como sofremos influência de pequenos detalhes que acabam por definir toda a nossa personalidade, nossas preferências… Se fica algo daqui, é que o shimeji representava momentos felizes, mas que estão um pouco distantes para fazerem efeito no presente.

Agora lá vou eu, me atirar nas crises de identidade de novo para descobrir qual é, então, minha nova comida favorita. Ainda bem que o filme predileto eu já sei, é Jurassic Park.