Hoje eu to na bad

Não faz muito tempo, começou uma onda de novos memes e novas piadinhas em alguns perfis do twitter e em páginas do facebook, todas envolvendo a famigerada BAD.

Para os mais velhos, eu explico: a bad é aquela depressão e vazio que só os millennials (ou geração Y) entendem e sentem, geralmente o tempo todo. É difícil acordar e ir para o trabalho, é difícil não ter dinheiro suficiente e é pior ainda se relacionar amorosamente.

A bad virou nossa amiga. Ao mesmo tempo que eu acho demais podermos rir de algo que nos atormenta, eu fico muito preocupada com meus colegas. Talvez por conta da intensa influência da tecnologia (e a isso eu me refiro smartphones e mídias sociais), nós nos tornamos uma geração de introspectivos que adoram compartilhar. Contraditório, né? Mas é isso que somos: contraditórios. Estamos rompendo diversas barreiras, mudando paradigmas e descontruindo (adoro essa palavra!) a sociedade de ódio em que vivemos. Somos uma geração de transformação e rompimento. Estamos fadados ao erro e ao sofrimento, mas também somos nós que construiremos a base para as futuras gerações levarem a diante todas as nossas percepções.

Não nos identificamos mais com piadas racistas, homofóbicas, transfóbicas e machistas. Não nos escondemos mais atrás do humor para ofender as pessoas. Não ficamos mais calados e preferimos partir do que compactuar com familiares machistas, homofóbicos e opressores.

Não nos identificamos com a meritocracia e com o sonho brasileiro de trabalhar numa grande corporação por 10 anos com muita hora extra e pouca qualidade de vida para aí então conseguir uma promoção significativa. Nós queremos viver agora e queremos ser felizes. Queremos um emprego que signifique um pouco mais do uma simples carteira assinada. Escolhemos nossa carreira baseado nos nossos sentimentos e personalidade e não no que dá mais dinheiro.

Não queremos sexo, drogas e rock and roll (só um pouquinho, né?). A gente quer Netflix and Chill. E Spotify. Curtimos momentos de solidão. Algumas vezes porque não temos escolha.

Não queremos mais “arrumar marido” ou “pegar mulher”. Nós queremos ser felizes. De preferência acompanhados, mas se não der a gente compartilha um “olha elaaaaaaa” no Facebook com os amigos e fica tudo bem.

Querendo ou não, nossos desejos não são utópicos, mas de alguma forma nos tornamos uma geração de sofredores. Damos nossa cara a tapa o tempo todo discutindo na internet e defendendo nossos valores (SIM, DESCONSTRUINDO, SIM! DESCONSTRUINDO SEMPRE), que às vezes ficamos cansados. Parece que é dar murro em ponta de faca. O que era para ser nosso lazer virou também o nosso campo de batalha. Na maior parte do tempo, nós estamos cansados.

Acho que nos tornamos muito ansiosos. Não é nossa culpa, a tecnologia nos dá uma resposta muito rápida a qualquer estímulo. Nas minhas mãos, eu seguro qualquer resposta para qualquer pergunta que o Google possa responder. E então nós caímos na armadilha de acreditar que a vida também é assim. Ficou mais fácil, nessa introversão e nesse distanciamento físico que a internet proporciona, viver de fantasia. A gente sonha, sonha e acha amigos para sonhar junto e acaba esquecendo de pôr os pezinhos no chão depois.

Viver em fantasia é fácil. Não requer nenhum esforço. Você senta e sonha.

Ir lá e fazer acontecer é muito mais difícil. Infelizmente, o mundo e a sociedade não te dá recompensa simplesmente por ser uma boa pessoa e por tentar construir uma sociedade melhor. Infelizmente, depois de tanto quebrar a cara na internet, mesmo defendendo boas causas, você ainda tem que quebrar a cara na vida real. Seja no emprego, com o crush, com a família: você ainda vai quebrar muito a cara.

E vai doer pra caralho.

Mas entre uma dor real que pode te fazer realmente amadurecer e uma fantasia não concretizada, não sei bem dizer porque alguém escolheria a segunda opção.

Nós somos idealizadores. O que esquecemos é que nem sempre iremos viver sob esses ideais o tempo todo. Principalmente quando lidamos com relacionamentos.

Relacionamentos são o terror da vida. Não sabemos nada sobre isso, porque estamos reconstruindo toda a noção de relacionamentos, do que permitimos e do que queremos com nossos parceiros. Então, ficamos perdidos e mais uma vez: sonhamos.

A realidade, por pior que seja, ainda vai ser o único lugar onde algo realmente pode acontecer. Sonhar é gostoso. Eu gosto. Fantasiar também. Mas é na realidade que se encontra a nossa vida. E deixar para enfrentá-la depois só vai piorar a nossa situação.

Fantasiar um relacionamento perfeito não o torna melhor. Criar expectativas para o seu Crush, que nem sabe que você existe, não torna o amor real. Idealizar uma pessoa não a torna melhor. E, definitivamente, sonhar com um relacionamento não o torna possível.

Estamos carentes, eu sei. Mas lembra quando eu disse que éramos contraditórios porque gostamos de compartilhar? Estamos todos carentes, então vamos compartilhar essa carência. Eu te abraço hoje, você me abraça amanhã.

Enquanto tentamos nos ajeitar nesse mundão, por que não tentamos fantasiar menos? Vamos analisar um pouco nossos sentimentos, (ops, eu sou aquariana, desculpa cancerianos! Vai ser difícil para vocês, mas tentem) nossas escolhas e o que realmente queremos para nós antes de gastar nosso tempo preenchendo uma fantasia que só vai te trazer sofrimento e frustração depois.

Sonhar é top. Viver é segurar essa marimba, monamu.