Eu não estou mais lá

Eu também já fui essa espécie de Hank Moody, que é levado pelos polícias depois de fazer muita merda. Eu ainda estou sob custódia. Ainda sinto gosto de sangue na boca e sorriu para o espelho enquanto olho para as marcas que ficaram na minha cara — se você quiser saber o que me aconteceu, pergunte a elas.

Eu também já fui essa espécie de Hank Moody que bebe demais e arranja briga, que cai no meio da festa e continua chão mesmo depois de todos terem ido embora.

Com o rosto latejando e aquele maldito gosto de sangue na boca, sigo de volta para casa, sabendo que sempre há as lutas em que entramos para perder. No final, nós sempre perdemos. Mas existem também as outras batalhas, a dos dedos que acertam as teclas certas e formam as palavras certas. Aqui nós ganhamos.

“Hey baby, when I write, I’m the hero of my shit.”

A frase do velho Buk fica agora rolando na minha cabeça, porque uma hora chega esse momento em que tudo o que se pode fazer é sentar a bunda na cadeira e deslizar os dedos pelo teclado, apenas esperando que o melhor aconteça. Então, eu escrevo cartas de amor e me desculpo por todas as cagadas já feitas. É isso que sei fazer e é isso que eu faço mesmo quando não há mais ninguém que queria lê-las ou ouví-las.

Eu ainda sou esse Hank Moody que declama poemas dentro de um avião. Meio patético, meio romântico. Eu sou esse Hank que chora na frente dos outros e que continua o embate com as teclas — mesmo quando todo o resto parece perdido.

Acontece que eu nunca poderia ser Hank Moody e nem Bukowski, porque sou mulher também e a musa provedora, que acolhe e protege, não pode ficar louca, dizem alguns. Porque, sobretudo, as moças não devem beber demais, falar merda demais etc… E eu digo que as musas também enlouquecem e eu nunca fui o tipo de pessoa que fica bem em cima de um pedestal. Então, sento a bunda na cadeira e escrevo algumas cartas de amor que nunca serão entregues. Eu sou essa espécie de Hank Moody que erra querendo acertar e que dança no meio da chuva enquanto o resto do mundo está abrigado debaixo de marquises. Eu nunca tive medo de me molhar.

No final, nós estamos todos esperando pelo melhor. Tentando sermos melhores.

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