A casa estava vazia. Tinha permanecido assim desde o penúltimo dia do ano anterior. Restavam apenas uma meia dúzia de quinquilharias: a mesa de jantar que ganhamos da minha mãe; duas cadeiras que parcelamos em 10x no cartão; um puff surrado, que herdamos sei lá de quem; e a televisão de tubo que algum amigo nos deu, depois de dispensa-la na última mudança. Meus livros e cd’s empilhados em canto da sala. Caixas sem nada dentro. Eu e um maço de cigarros quase vazio.

Era o primeiro dia do ano — e a ressaca sempre vem mais forte nessas datas.

Enchi uma garrafa com água da torneira, na esperança de que depois do primeiro gole todos os males do mundo desaparecessem. E que meu corpo fosse invadido pelos benefícios da água. E que o ministério da saúde deixasse de advertir que fumar causa câncer. Nada aconteceu. Um gole de água nunca é capaz de saciar totalmente a sede que vem com as ressacas alcóolicas e amorosas.

Imaginei, então, que a campainha tocaria. Três longos toques, que me impediriam de acender o último cigarro. Do outro lado da porta, ensopado por causa da chuva, surgiria ele, e suas mãos trêmulas me tirariam para dançar. “Dance me to the end of love”. E depois que a voz de Cohen parasse de ecoar pela casa, nós saberíamos se era fim e ou se era recomeço. Nós dançaríamos até que não restasse mais nada, nem o último cigarro, nem o último trago.

A campainha não tocou.

Leonard Cohen estava morto.

O amor acaba quando não resta mais ninguém para virar o disco

Era o primeiro dia do ano — e nem os copos de água e de whisky poderiam mudar isso.

O amor acaba depois de 25 cigarros em uma só noite; quando o telefone toca e é engano.

O amor acaba por engano. Às vezes por acidente.

Era o primeiro dia do ano. A casa estava fazia, restavam apenas uma dúzia de quinquilharias e a dedicatória que ficou esquecida dentro do disco de um do Cohen:

“Dance me to the end of love”.

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