Casal na Oca/Amanda Lima

A espera de seis anos

Desde os meus 15 anos eu sonhava em estudar na FullFrame Escola de Fotografia. Na época, eu estava no casamento de um dos meus tios e fiquei o evento todo fascinada com os equipamentos de fotografia daquela equipe. No final da festa, fui conversar com os fotógrafos e pedi indicação de algum curso de fotografia em São Paulo. Eles me indicaram o lugar que se tornaria uma casa para mim. Eu pesquisei o curso e toda a grade de aulas. Fiquei ainda mais apaixonada. Mas como nada é para ser fácil, eu não tinha condições de pagar o curso.

Ano após ano, desde os meus 15, eu entrava no site da escola para ver aquele valor e pensar em maneiras de conseguir pagar. No final de 2016, eu já estava com 21 anos, mas o nome daquela escola nunca tinha saído da minha cabeça. Se ela era a melhor de São Paulo, era lá mesmo que eu ia estudar.

Um dia saindo do trabalho resolvi ir para a Avenida Paulista passear. Entrei em uma daquelas bancas de jornal enormes que tem de tudo. Peguei uma edição da revista Fotografe Melhor e fiquei lendo as matérias do mês. Até que virando a página surge uma propaganda da FullFrame anunciando uma prova de bolsa de estudos. Eu não acreditei no que eu estava vendo. Aquela era a minha chance de estudar lá. Anotei todas as informações no bloco de notas do celular e coloquei a revista de volta na prateleira. Na hora eu já mandei e-mail me inscrevendo. Eles retornaram passando alguns conteúdos que iriam cair na prova e uma série de reportagens sobre fotografia e exposições que também poderiam ser cobradas.

Eu não conhecia grande parte do que eles exigiam de conteúdo. Por conta disso, imprimi tudo o que eu achava necessário estudar. Eu estava resolvendo um monte de coisa na faculdade e eu também estava participando de um congresso no trabalho. Ou seja, eu tinha que aproveitar as minhas quatro horas diárias dentro do transporte para estudar. E nesse período eu me via muitas vezes segurando com uma mão na barra do ônibus/metrô/tróleibus ou trem e com a outra segurando o pacote de folhas com o conteúdo impresso para conseguir ler.

Fiz a prova, mas sem muitas expectativas. Todos naquela sala pareciam saber bem mais de fotografia do que eu. O resultado saiu no dia seis de fevereiro de 2017. A Escola postou na página do Facebook as classificações e quem tinha ganhado a bolsa. O meu nome estava lá em primeiro lugar na unidade que eu tinha escolhido. Eu lembro até hoje o quanto eu chorei. Foram seis anos de espera. Seis anos imaginando como seria realizar o meu sonho de estudar fotografia no lugar que eu tanto sonhei. Eu liguei para tantas pessoas na hora.

A cada aula parecia que meu HD não ia aguentar mais. Era muita informação nova. Eu queria absorver e armazenar tudo. Eu sempre tentava aproveitar cada minuto de aula ao máximo. Eu tinha esperado seis anos para estar sentada ali. E a cada aula que passava eu só tinha mais certeza de que ali era o meu lugar.

No primeiro mês eu descobri que meu professor tinha fundado um grupo de fotógrafos em São Paulo. No começo eu não entendia muito bem do que se tratava, mas logo surgiu o convite para prestigiar a primeira exposição do ano. Lá eu fiquei sabendo que muitos ex-alunos faziam parte do tão prestigiado Bulb f/22 e o melhor: eles foram convidados para entrar. Depois daquela exposição a minha vida na Full tomou outro rumo. Eu me desafiei a entrar no Bulb assim como outros alunos e por meio do convite do meu professor. Para conseguir isso, eu sabia que tinha que manter um certo nível em todas as entregas das minhas fotos, nas aulas e em tudo o que fosse exigido de mim. E assim foi. Eu sempre dava o meu melhor imaginando que um dia o convite viria. Exposição do Bulb em Itu, eventos indicados pela Escola, congressos e palestras. Eu ia em tudo imaginando o quanto aquilo iria contribuir para a minha formação como fotógrafa e desenvolver o meu olhar.

O momento mais esperado era o do Projeto de Conclusão de Curso. Todos estavam muito ansiosos para ver as fotografias dos colegas e de que maneira cada um decidiu sintetizar aquele ano. Eu sabia a importância que o projeto teria na minha vida e o quanto ele poderia contribuir para O CONVITE acontecer. E bem no mês de novembro, quando eu mais precisava que fizesse sol para eu fotografar, choveu como eu nunca vi na vida. O sexto semestre de Jornalismo na Universidade Metodista, que é conhecido como o pior de todos, realmente resolveu mostrar o motivo dele ter essa fama. No trabalho, apareciam várias oportunidades de uma única vez e eu sempre agarrando todas e deixando o projeto em segundo plano.

O que era para ser o mês de produção do meu projeto, acabou se tornando o mês em que eu acordava no meio da noite com medo dele. A minha primeira ideia era a de contar a história do Damba Fall, um senegalês que vende fones e capinhas de celular perto de uma estação da linha azul. Fiz as fotos com o Damba no local de trabalho dele, mas as fotos não conseguiam construir uma narrativa. E eu tinha uma semana até a entrega final do projeto. Naquele momento eu já não dormia mais, eu simplesmente virava as noites estudando para as provas da faculdade e planejando o que eu faria com o meu projeto.

Eu tinha uma semana para produzir algo bom o suficiente para não fazer os seis anos de espera terem sido em vão. E aí eu lembrei do delicioso feijão da dona Cida lá da comunidade Grilo, na Cidade Tiradentes. Eu lembrei do bom humor da Josi e a forma carinhosa como ela me recebia todos os domingos de manhã. Eu lembrei de um dos lugares que mais me transformou e das pessoas queridas que vivem lá.

Eu tinha 5 dias para fazer o meu projeto, mas eu precisei de apenas algumas horas no Grilo para produzir algo que eu me orgulhasse muito. Usei como base o Mapa da Desigualdade de 2016 e o ranking dos municípios com maior e menor expectativa de vida em São Paulo. Cidade Tiradentes ficou em último com uma expectativa de vida de aproximadamente 53 anos.

Fiz fotos e gravei os áudios. Consegui construir a narrativa que eu tanto queria, com o tema que representasse algo para mim e com algumas das pessoas mais queridas da minha vida. Entreguei para o meu professor e junto com a entrega daquele pen drive foram também uns 20 kg que estavam nas minhas costas desde o início de novembro.

A apresentação no auditório seria no sábado seguinte. Das três unidades da FullFrame, aproximadamente 90 alunos entregaram o projeto final e apenas os 20/25 melhores iriam subir no palco para apresentar. Ninguém sabia quem eram os escolhidos até o momento de apresentar. Os alunos foram sendo chamados um a um no palco. Os trabalhos estavam simplesmente incríveis. Quase todos me arrepiaram. Até que o meu professor subiu no palco e começou a falar de uma aluna que prestava tanta atenção que ele nunca tinha visto nada igual. Ele denominou a aluna de pequena guerreira e apontou para mim. Era eu! Entre 90 projetos entregues, o meu estava lá! Por alguns segundos as minhas pernas não me permitiram chegar até o palco. Eu não sei como, mas quando dei por mim eu estava lá em pé com todas aquelas pessoas olhando para mim.

A primeira coisa que eu lembrei foram dos seis anos de espera e como eu só estava lá por conta daquela bolsa de estudos. Se eu tinha um tempinho para falar antes de apresentar o meu projeto então era da bolsa de estudos que eu ia falar. Para algumas pessoas isso passa despercebido, mas para quem não tem condições de pagar por um estudo tão caro quanto a fotografia isso é fundamental. Eu agradeci demais, eu agradeci a transformação que eles fizeram na minha vida e como eu só estava ali naquele palco entre os melhores projetos por conta daquela bolsa.

Apresentando o projeto de conclusão de curso/Yago Moreira

Eu sou uma jovem moradora de um dos piores bairros de Diadema. Esse tipo de oportunidade transforma a vida da gente. Naquele palco eu ressaltei essa transformação. Que outros jovens como eu que sonham em ter acesso aos conhecimentos de fotografia possam desfrutar de tudo o que eu pude. Apresentei o meu projeto e foi incrível ver tantas lágrimas escorrendo de rostos desconhecidos ou não. As pessoas são muito singulares. É quase impossível conseguir tocar o coração de tanta gente ao mesmo tempo. Eu acho que deu certo!

O dia 9 de dezembro de 2017 foi um dos dias mais importantes da minha vida e o dia em que eu consegui emocionar mais pessoas ao mesmo tempo. Eu precisei esperar seis anos para finalmente estudar na Full. Ela trouxe tanta gente incrível para a minha vida e que eu vou levar para sempre comigo. Para fechar esse ciclo incrível: eu fui convidada para entrar no Bulb.