Ele(s) faz tudo sempre igual

Desenho de Teresa Dias

Na periferia de Diadema, no famoso bairro de Eldorado, ele me deixou subir na frente para entrar no ônibus, fiquei agradecida pela gentileza, mas enquanto eu subia as escadas, olhei para trás e percebi que ele analisava atentamente a minha bunda e tentava ver alguma parte do meu corpo por debaixo do vestido.

Ele usava a desculpa que às 6 da manhã era horário de pico e o vagão estava completamente cheio, mas assim que chegássemos na Ana Rosa e as pessoas descessem para fazer baldeação, ele iria parar de encostar em mim. As pessoas desceram na Ana Rosa, Paraíso, Sé e Luz, mas ele continuou tentando de todas as formas violar o meu corpo, tirar o meu sossego e tranquilidade.

Desci no metrô Vila Mariana para ir trabalhar, mas de lá eu ainda ando cerca de 20 minutos pela Av. Lins de Vasconcelos até chegar no escritório. Eu passei pelo terminal de ônibus, comecei a descer a avenida e me senti aliviada por não estar de vestido, saia, regata ou qualquer coisa que mostre mais o meu corpo. O look do dia era uma botinha Oxford marrom bem velinha (muito confortável), uma calça flare e um casaquinho lindo verde que comprei no brechó da igreja de São Judas, só pescoço e cabeça aparentes, tá de boa descer a Lins hoje, eu pensei, seria esse o primeiro dia que eu ia para o escritório sem ninguém mexer comigo? Não, não foi aquele dia, eu estava bem enganada. Mexeram quando passei no posto de gasolina que é perto da Kalunga, eu atravessei. Mexeram quando eu passei na frente da mecânica que restaura carros antigos, eu atravessei. Mexeram na hora que eu passei na frente do mercado Dia e até mesmo quando passei na frente dos dois cemitérios que ficam na rua debaixo do escritório. Vinte minutos andando apressada e olhando para trás a cada 2 minutos para me certificar que não tinha ninguém atrás de mim. Eu peso pouco mais de 50 kg, meu corpo não chama tanta atenção, talvez seja esse cabelo incomum, mas homem não sente atração por cabelo. Eu sei lá qual era o motivo…

Ele entrou bem na minha frente quando estávamos na Avenida Paulista fotografando um protesto e, por conta disso, perdi uma foto muito boa que queria fazer. Eu pensei que como os atos são sempre muito tumultuados, ele não tinha me visto e por isso tinha feito aquilo. Eu encostei no ombro dele, pedi licença, ele olhou para mim por alguns segundos e voltou para onde estava, fechando completamente meu campo de visão e a possibilidade de eu conseguir fotografar algo.

Falei para ele que eu tinha aberto uma conta em uma corretora de investimentos, estava lendo algumas coisas sobre o assunto e tinha começado a investir parte do meu salário no Tesouro Direto. Eu tinha alguns planos para o último ano da faculdade e aquela era uma boa maneira de guardar dinheiro e ainda ter boa rentabilidade. Ele começou a fazer uma prova oral sobre as definições de SELIC, Tesouro Pré e Pós, IPCA e as diferenças entre eles. Eu estudo jornalismo, não faço nenhum curso na área de economia, eu tinha lido algumas coisas sobre o assunto antes de começar a “brincar” com o meu dinheiro, eu respondi o que sabia (não tudo), mas qual a necessidade daquela repentina prova oral? Por acaso ele era algum professor de economia? Não! Por que ele queria saber os meus conhecimentos no assunto? A expressão dele não era de alguém interessado em aprender e que fazia uma nova descoberta a cada termo que eu explicava. Aliás, ele sabia que o meu ponto forte era fotografia, fotografia de rua para ser mais específica, eu não teria tantaaaaa coisa para acrescentar sobre assuntos econômicos.

Essas provas orais não aconteciam somente quando o assunto era economia, e eu claramente não sabia muita coisa, outro dia eu tive que “passar” por um teste sobre fotografia também. Ele questionou os meus conhecimentos sobre os diferentes tipos de câmera, classificação das objetivas, planos, enquadramentos e ângulos de visão, tive que discorrer todo o meu conhecimento sobre iluminação, flash, Lightroom e os efeitos que eu já tinha testado usando o obturador. Ele sabia que eu fotografava há muito mais tempo que ele, que passo por situações extremas com a minha fotografia de rua (comunidades), e que por isso, tanto faz enquadramentos, ângulos e tipos de iluminação. O que eu precisava denunciar através da minha fotografia, sempre deu muito certo sem eu ter lido nenhum manual caríssimo que eu não tinha dinheiro para comprar na Livraria Cultura.

Ele não acreditou quando eu disse que idealizei o tema do meu TCC aos 13 anos. É difícil acreditar mesmo, quem aos 13 sabe a faculdade que quer fazer e ainda faz o planejamento do TCC? Eu! Tema, método, captação de recursos, fotos, ONG’s que eu entraria em contato para tentar uma parceria e até os personagens. Ok, talvez os personagens eu mude alguns porque conheci muita gente dos 13 aos 21, né? Mas ele estava questionando a minha capacidade aos 13 ou a de agora? Se fosse eu amigO dele que tivesse falado exatamente a mesma frase “Eu já sabia o tema do meu TCC aos 13 anos”, ele teria reagido da mesma forma? Eu acredito que não.

Eu não precisava ter passado por muitas das coisas que relatei. Foram apenas sete parágrafos com situações que vieram agora na minha cabeça e deu vontade de escrever. Mas vivendo no Eldorado, rodando a cidade todos os dias e passando apenas algumas horas em casa por conta da correria, chega uma hora que você passa por situações extremas e aprende muito com elas. Eu não precisava ter respondido quando muitos homens duvidaram da minha capacidade de realizar alguma tarefa ou de cumprir alguma função. Eu não deveria ter me calado quando tentaram invadir meu espaço pessoal e do meu corpo. Eu não precisava ter desenvolvido um medo incontrolável de um cara da minha rua que sempre estava no ponto às 5 e pouco da manhã que pegava o mesmo ônibus que eu e que todos os dias tentava de alguma forma se aproveitar de mim.

Mas não me envergonho de nada disso. Ninguém nasce sabendo como se comportar nessas situações. Nenhuma mulher nasce sabendo combater o machismo, o abuso sexual e a intolerância… Se hoje sou conhecida pelos amigos e familiares como uma pessoa extremamente forte, isso se deve aos choros que eu já tive que engolir e todas as vezes que já tive que abaixar a cabeça. As situações não pararam de acontecer, mas hoje me sinto muito mais confiante para encarar o mundo e todas as batalhas diárias.