Não é sobre contas de matemática. É sobre escorredores de macarrão.

O dia em que me peguei, tendo que escolher entre um escorredor de macarrão, porque o meu era pequeno, e um vinho, para tomar depois das 18h de uma sexta-feira, a epifania veio como uma bala perdida, rápido e sem avisar: Merda, virei gente grande. E muitas vezes gente grande é isso, né? Ter que abrir mão de uma taça do seu rosê preferido que tomaria assistindo sua série preferida do netflix, para poder comprar o escorredor de macarrão, ou de louça, ou facas porque as suas, misteriosamente, foram jogadas fora, junto da bagunça da pia.

E foi no mercado, as 20h da noite, que eu comecei a pensar, qual seria o meu problema de querer virar adulta? Eu sempre sonhei em morar em um lugar super cool de São Paulo, descer nas manhãs de domingo, de chinelo, para tomar café e visitar alguma sub galeria. Consegui. Tudo que eu fazia, que não me dava aquela felicidade momentânea, repetia o seguinte mantra: “É passageiro! Isso que vai fazer você ser uma adulta e ter sua liberdade!” Pronto, eu conseguia resolver até o problema de matemática mais difícil do mundo.

Mas não foi o x=9 que me fez virar adulta. Não foi entender o que é mitose e meiose. Foi aquela escolha entre um vinho e um escorredor. Maldito escorredor, que furou minha bolha de sonhos.
O dia em que eu tive que abrir uma tabela de convênios médicos e escolher qual fazer. Todo dia 10 que eu tinha que ir até o caixa e pagar meu aluguel. O rolê que tive que abrir mão, porque ou era sair com os amigos e encher a cara, ou fazer o mercado da semana. Ligar para o porteiro avisando que a luz tinha acabado, por tomar banho e ligar o microondas ao mesmo tempo. Querer sair de casa às 19h, mas sair as 20h, porque o gato vomitou no tapete. Foram todos esses carimbos que estavam no meu passaporte para a vida adulta.

E todo o dia que eu ligo para minha mãe e ficamos conversando, entorno de uma hora, no máximo — já que a conta de telefone agora quem paga sou eu — ou que mando mensagem avisando que hoje não poderemos conversar, já que eu tenho uma pilha de roupa à ser lavada, antes que crie vida, e ela me responde com milhares de carinhas, meu coração aberta e a vontade de largar tudo, juntar as coisas na mala e voltar pra sua casa deles é tão grande que eu chego a sonhar que isso aconteceu. Mas não é tão simples assim. Ser adulto não é simples assim. Nada aliás, nem a escolha de comprar 2 ou 3 berinjelas, calculando se não vai estragar na geladeira, até ligar na net para cancelar o plano.

É nessa fase que você se pergunta “que porra que eu fiz com todo o meu dinheiro até agora?” Antes não tinha conta, aluguel, gatos, comida pra pagar e não sobrava um tustão. Hoje? Você tem seu salário do mês pra fazer tudo isso e ainda guardar pra poder sair um ou outro final de semana, ou comprar aquela brusinha quando entrar na promoção — porque assim, sem promoção, vai ser difícil. Se pudesse voltar no tempo e falar pra Amanda do passado “Amiga, para com isso e guarda esse dinheiro!” eu faria, sem pensar. Quem sabe eu até já pudesse me aposentar… Agora, eu dou valor a cada moedinha perdida na carteira e sei que se juntar todas, podem render uns trocados que são revertidos no bom e merecido litrão. Não é fácil. 
Faz exatamente 364 dias que entrei no avião da vida adulta. A viagem é linda, a vista é maravilhosa. Os três primeiros meses na ilha são encantadores. Mas depois? Você quer voltar, você quer a sua pátria amada. Quer chegar em casa de um dia do trabalho e ter a janta pronta, a cama arrumadinha esperando por você e um cafuné e colo de mãe. Mas, você sabe que vai chegar em casa e vai ser seu dia de limpar a sala, e vai ter que lidar com três universos completamente diferentes dos seus. E torcer para que nenhum dos gatos tenha achado o seu novelo de lã — de novo — e espalhado pela casa. É engolir sapos no trampo porque você sabe que se jogar tudo pro alto, agora, é irresponsabilidade de mais, e vai ter que achar outro pra se sustentar. É entender que o processo é longo e tem curvas. Ser adulto é saber brincar de slackline o tempo todo.

Hoje, depois de um ano morando sozinha e estando em um relacionamento sério com os lençóis de elástico, eu posso dizer: tem algo peculiarmente mágico e agradável em tudo isso. Aquela coisa de sentir as pequenas vitórias e pequenos prazeres da vida, está interligado em ser adulto. Porque deixar o vinho na prateleira e voltar pra sessão de utensílios domésticos e buscar seu novo amigo escorredor é mágico, pelo simples motivo de ser o seu escorredor, é a sua decisão e ninguém mais interferiu ou fez isso por você. O macarrão que vai escorrer ali, terá um gosto único e maravilhoso. Deixar seu primeiro feijão queimar e ter que comer miojo saber feijão é incrível, porque os próximos feijões terão um sabor deliciosamente bom. Colocar 500g de sal, achando que era farofa temperada, e quase morrer de hipertensão quando for experimentar, fará todas as suas próximas farofas ficaram incrivelmente boas. Queimar o brigadeiro por que foi varrer a casa e esqueceu de desligar o fogão, te forma em pós-graduação em confeitaria nas próximas receitas. Manchar sua blusa preferida na hora de misturar as roupas na máquina, te torna a melhor lavadora de roupa que você respeita. Esquecer as janelas da sala abertas e chegar do trabalho, vendo sua sala alagada e os sofás ensopados, faz você virar uma meteorologista que até a Maju respeitaria. Tomar banhos gelados e nos escuros, por ter caído a resistência, e não tem mais ninguém pra ligar pra portaria, torna a ideia de ir acampar no meio da mata divertida. Matar várias plantas por seca ou alagadas, e depois comemorar por ser praticamente uma jardineira e ver cogumelos nascendo em meio ao caos. Ter pessoas tão diferentes ao seu redor, é aceitar e entender coisas que você nunca achou que precisaria entender e aceitar. É sempre ter alguém pra conversar, alguém pra rachar uma pizza, ou gritar e se estressar quando você precisa só colocar tudo pra fora. Querer ter a casa só pra você, mas quando fica sozinha querer eles ali, de novo. É comemorar cada conquista, pequenininha… Ir pra casa aos finais de semana, torna os almoços em domingo especiais, como se todos fossem ceias de natal. Desde os 10 reais que sobraram na sua conta esse mês, até chamar seus melhores amigos para um jantar no seu apartamento, na sua mesa de jantar, com a comida que você fez. É saber que mesmo longe, seus pais sentem um orgulho fudido por você, que a menininha deles, que tinha nojo de limpar a pia, com restos de comida, hoje precisa limpar o banheiro todo. Duas vezes na semana. É receber um bom dia do seu pai, um boa noite, ou ele ir fazer feira e voltar com três sacolas recheadas pra você se alimentar bem, e saber que aquela prova de amor é maior que qualquer outra. É poder ligar pra sua mãe e perguntar o que fez de errado pra gelatina ter ficado mole e ruim? 
Ser adulta é o simples detalhe entre a conta de bhaskara que vai fazer você zerar um gabaritar a prova, e saber que às vezes é hora de comprar um escorredor de macarrão, mas as vezes é a hora de comprar um vinho e comemorar suas pequenas vitórias.

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