Melodia tóxica

Fez, não fez, esmerdalhou, pixou parede, quebrou pratos e corações. Não deixou quase nada além de vertigem cinza, pontadas ocasionais e ar pesado. Um rastro sem forma nem direção.

Ainda assim, tem horas que uma brisa mansa e colorida sopra e me bota do seu lado de novo. Quase sempre, esse vento sorrateiro vem embrulhado em música. Cadência para momentos inventados e batidas para coisas que nem chegaram a ser o que tinham que ter sido.

Brisa desacertada e desavisada que chega colocando o pé na mesa e o dedo na cara.

Quando bate, traz junto sussurros melódicos de Caetano dizendo que “mora na filosofia pra quê rimar amor e dor”, sofrência de Gal de “passa nuvem negra larga o dia e vê se leva o mal que me arrasou”. E aí, por um bater de asa de borboleta, eu volto.

Ao café da manhã de domingo, à caixa de som da praia, à quadradeira eufórica das noites de sábado. Melodia tóxica de nós dois. Metade verdade, metade invenção de um coração bom de escrita e ruim de vida real. Pulsações que espalham pela mesa os farelos dessa história.

Mas como música e conto do Cortázar, essa brisa dura pouco. Um retrato que deixa de fora o que não é bonito. Um recorte de tempo/espaço dobrado ora como lança, ora como flor. Sobre os retalhos caídos pelos cantos, essa brisa esquece de contar. As gotinhas de sangue que tingem o avesso desse papel também ficam de fora desse sopro enganoso.

Ele vem, me embala como abraço de reencontro mas logo me devolve para aquela verdade que só eu vivi.

A escuridão que engoliu toda a beleza que havia aqui. E se desmancha em silêncio aquilo que já foi suspiro, gritaria e gemido.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated AF’s story.