Ser folha

Aqui da janela de casa já dá pra ver o outono chegar. A copa daquela árvore gorda e verde começa a se ver cansada de carregar todo o peso do calor. Algumas folhas já “marronzeiam” de cansaço. Tombadas para baixo, parecem um pouco cabisbaixas ao saber que falta pouco para o frio. Já nem dançam mais com o vento como fazem as jovens verdes ainda plantas. Entre o florescer e o cair, flores amarelas incertas sobre o futuro se contorcem entre o verde primaveril e o marrom dos fim dos dias. Se balanceiam na incerteza do porvir.

Três momentos de uma mesma vida. A vitalidade ingênua dos inícios, a ambivalência dos entremeios e a sábia serenidade da maturidade. As folhas verdes, carregadas da energia vital de quem acaba de começar, se movimentam caoticamente. Caçam qualquer vento, seguem qualquer rumo. Serezinhos inquietos querendo deseprender-se de uma grande árvore que às vezes parece coleira. As plantas amarelas não obedecem qualquer ordem do tempo. Já encontraram seu movimento e bailam elegantemente com brisas mais mansas. Os ramos marrons quase não dançam. Parecem não ter mais força para brincar com o vento. Seguem impávidos como quem observa — com amor — o inabalável giro do mundo.

Sentada no chão da sala e olhando pela janela, escuto a vida cantar no meu ouvido que tudo é movimento. Que não há como escapar e nem porque se preocupar. Em tudo há a sabedoria. Cabe a nós, sermos folhas.

A vida se explica e se repete em tudo.