Cadeira

Eu sempre esperei que a ideia caísse do céu. Sentava em uma cadeira de praia, essas com cores extravagantes que, na hora da compra, as pessoas escolhem sempre as com mais opções, e enraizava. Esperava desde a manhãzinha até o pôr do sol. Por vezes, cheguei a contar as estrelas do céu. Isso tudo esperando a ideia genial que mudaria minha vida. Tinha vezes que chorava, nada acontecia. Houveram muitas chuvas na cabeça, e eu sempre via pelo lado positivo. Esfriar a cabeça. E como com plantas, colocar na terra e molhar pra crescer. Essa era a ideia da minha ideia. Em uma dessas tardes que, na época, eu denominará criativas, o céu desabou e caiu pedras. Fui expulsa do meu paraíso. Uma pedrada e cinco pontos na testa. Aquele dia foi dolorido, uma dor que só quem leva pedrada na testa e na vida pode entender. Me senti desolada. Isso mesmo, essa foi a palavra que descreveu. Foi, para mim, como ver um filho indo embora, depois de tantos anos de dedicação. Ou pior, foi como ver um filho expulsando os pais, depois de tantos anos de dedicação. Horrível.
Mas nada tirava a ideia da minha ideia da cabeça, porque o céu não me daria esse presente? Uma bela ideia. Ou isso ou um perfume. Eu esperava e aguardava ansiosamente.
Pela rua, já se espalhavam boatos sobre minha pessoa. Tanta bobagem. Parecia que nunca, ninguém tinha sentado numa cadeira de praia (ou qualquer cadeira) e esperado que uma boa ideia surgisse. Ora eu era artista, ora escritora. Fazia ambas as tarefas com uma magnitude sem igual. Mas naqueles momentos de silêncio, só esperava pela ideia.
Lembro que um dia tia Judite perguntou o que fazia na rua. Eu lhe disse e ela riu, como se falasse besteira. Em alto e bom som respondi “Ora tia, se do céu cai estrela, cairá minha ideia”. Ela se foi, sem tentar argumentar, sabia que minha teimosia vinha de berço.
Depois de aproximados sete meses, cinco pontos na testa, algumas picadas de insetos. Fui internada. Minha família não mais aguentou, nem minha ideia que não veio, nem a vizinhança inteira.

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