Um texto sobre morte

Tenho algumas plantas na minha casa. Comecei não faz muito tempo, talvez dois anos. A primeira é uma semente de bergamota plantada em 2013.

A violeta expande a vida do centro para as pontas, como uma mandala. As folhas mais exteriores vão recebendo menos seiva, vão ficando amareladas, e então viram um fio seco da cor da terra. Às vezes eu arranco quando estão no fim, porque com isso a energia do centro pode ser usada para folhas mais novas. E as folhas bebês são sempre tão lindas. Tão protegidas pelas folhas ao redor. E as folhas que protegem são fortes, e grandes, e responsáveis. Como pode haver feiura ou medo nisso? É impossível, é a beleza.

Às vezes eu como uma fruta e penso em enterrar a semente. Às vezes eu faço isso, às vezes não. Outras vezes o que quero é ver os restos de uma fruta se decompor. Os dias passam, o mofo vem, as cores se transformam totalmente, o que existia já não existe mais. O cáqui vira uma pasta esbranquiçada. A bergamota não é mais uma bergamota. Tem insetos trabalhando ali. O melhor é enterrar, e aquele corpo alimenta outras plantas. Como isso pode ser visto como tão ruim? É impossível, o meu jardim é feito de beleza e dentro da beleza tem isso. A própria fraqueza das plantas depois de um inverno rigoroso faz parte da beleza, porque existe vida, e existe recuperação. Às vezes, não. O meu manjericão ficou fraco demais esse ano. Há anos não floresce, não expande. Arranquei, e no lugar há outras coisas. Não era o lugar certo pra ele. Qual o problema nisso? Nenhum.

Mas quando a morte é humana, tudo isso ganha tonalidades noturnas. A morte é noturna, sim, mas o dia e a noite fazem parte do dia. Ela só é triste na medida em que sentimos falta de quem se foi. É uma saudade que não acaba nunca. Quando a morte se torna tabu, não há aprendizado. Não há vida. Tenho 28 anos. A maioria das pessoas que eu conheço da minha geração nunca perdeu alguém próximo. (Claro que isso varia. Um fato: quem já perdeu alguém sabe mais sobre a vida do que quem não perdeu.) Somemos a essa falta de experiência a interdição da morte como fato social. Não saber visitar um parente ou amigo com câncer. Nunca ter ouvido um sino tocar por alguém que ama. A morte hoje só ocorre dentro da vida se for por violência, contra os outros ou contra si. Nos grandes centros urbanos, os doentes não podem mais morrer em casa, em paz. Há muito barulho, não se pode deitar embaixo de uma árvore e adormecer. É preciso injetar seiva artificial e reforçada nos galhos que já não estão bem. Nas redes sociais, tudo é euforia. No máximo um post de falecimento. Quem está doente mente e esconde. Os mais egocêntricos não podem nem sequer ouvir falar do assunto. É proibido morrer.

Mas é permitido se fantasiar de morte. Contanto que ela venha caricaturizada e neutralizada em uma roupa de Halloween, tudo bem. Se vier em crucifixos e coturnos, em caveiras e maquiagem gótica, tudo bem. O que não é aceitável é falar ‘Nós vamos morrer. Precisamos adotar uma postura perante esse fato concreto, intransponível. Precisamos nos preparar.’

É que adotar uma postura perante a morte implica em reflexão. Implica, para quem pode, em leitura. Implica em silêncio, em observação. Vai doer. A morte te coloca sério. Mas o que me horroriza é ver filmes hollywoodianos em que é proibido ficar triste, como no Tudo acontece em Elizabethtown, ou naqueles em que a morte é transformada em uma choradeira sem fim isca de bilheteria, como em A culpa é das estrelas. Há também os que condensam as duas coisas, como A Little Bit of Heaven. Como alguém que já viu a morte de um ser amado, me sinto agredida por esse tipo de ficção. É desrespeitoso, porque viraliza e enlata a morte em formato para consumo rápido. E o que eu vivi foi uma experiência, a mais profunda da vida. Anedotizar a morte é perigoso. Se perde a dimensão real da vida. Lado a Lado é um bom filme, exceção. No seriado Girls, mas ali de forma autoconsciente, o velório é uma oportunidade para fofocar. Hannah literalmente rebola na cara de uma lápide. A morte é sempre retratada na família dos outros, roteirizada por quem não perdeu ninguém, ou não se deu ao trabalho de sossegar um pouco e pensar. Como cultura, os Estados Unidos têm problemas muito sérios quando o assunto é morte, e nós estamos importando isso. Com alguma frequência os personagens dizem que não estão mal enquanto por dentro estão ruindo. A mãe do personagem principal morre, mas mesmo após o choque, ele não chora. Uma semana de luto é o socialmente aceitável? Isso não tem o menor cabimento. Não à toa é a terra do zoombie walk. Já estão mortos por dentro. Como é que eu, se tenho consciência da morte, conseguiria imaginar meu avô ou minha tia em forma de zumbi? Quer dizer, é uma dissociação completa entre a morte como realidade e a morte como ficção. E lá vem mais um Halloween, que é sobre maquiagens e fotos no Instagram. Os cemitérios no dia 2 de novembro estão ficando vazios. É proibido morrer, é proibido amar em paz, em solidão, em saudade, chorar até dormir de cansaço porque alguém que tu ama morreu. É proibido ler um livro ao lado do túmulo da sua tia mais amada em um dia de semana. Ou você vai, mas não conta pra ninguém, porque o espetáculo não suporta, ou melhor, você não quer transformar a realidade sem adjetivos da morte em um espetáculo, e é só essa língua que eles entendem. É proibido pegar um resfriado e deixar-se curar sozinho, inclusive. Estamos ficando loucos?

Em um mundo onde tristeza, seriedade e morte são tabu, como uma criança que passou pela morte de um pai ou de uma mãe vai se sentir? Ela está duplamente errada: primeiro porque viveu algo que ninguém quer entender ou falar sobre, segundo porque ela não consegue fazer uma piada com o que aconteceu. Houve um tempo em que as pessoas viviam voltadas para a morte. Tudo que acontecia aqui era pensado em relação a ela, pecados e bondades. Karma e darma. A libertação veio e com ela o prazer e o riso. O prazer e o riso de quem sabe que vai morrer é igual ao de quem não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe? Claro que não. E se há duas coisas que não dão lucro para as empresas, essas coisas são consciência da morte e felicidade. Pois, as duas estão ligadas.

Para explicar bem, vou fazer uma volta. Um dia desses passei por um bairro nobre e percebi que os jardins estavam todos em perfeita ordem. As flores estavam radiantes. É primavera, é claro, mas o fato é que houve um serviço especializado e atento durante o inverno, provavelmente com adubos químicos, fertilizantes e demais estratégias modernas. É possível que eu esteja enganada, mas o que importa é o fio da intuição: no futuro, um mundo onde flores que mal se cansam são arrancadas e no lugar novas flores são plantadas, semanalmente. A produção de restos orgânicos (não falemos lixo, que é um conceito muito recente) saltaria para as alturas. Haveria um caminhão para recolher as plantas destituídas do mais pleno vigor, e novas plantas artificialmente tratadas seriam freneticamente repostas no lugar.

Após essa breve parábola, consciência da morte e felicidade. O cenário descrito te parece destituído de ansiedade ou, para usar um termo menos científico, desesperação? Se o purgatório é um estacionamento de shopping onde não encontramos o carro, o inferno é um jardim que floresce o tempo todo. Em Herman Hesse, Knulp: só achamos uma mulher bonita porque um dia ela morre. A morte de uma mulher bela é também o mote literário mais forte que há na opinião de Edgar Allan Poe. Se não morrêssemos, não haveria beleza. No tempo das cachoeiras de selfies perfeitas, ainda há quem se impressione com a beleza de uma mulher? Nada me impressiona, o excesso de imagem me sedou. Todos sedados com as flores de plástico, mas o problema aumenta por pura perspectiva à medida em que envelhecemos: nós todos vamos morrer e não sabemos como ou quando.

Quantas brigas poderiam ser evitadas, de quanto consumo, de quanta futilidade mental ou física poderíamos nos poupar se conseguíssemos compreender, assim, com letra maiúscula, Compreender. Ou pelo menos tentar. No lugar de tudo isso, de todas as tentativas intelectuais colocaríamos amor. Quando Voltaire em Cândido e o otimismo fala como conclusão de uma torrente de tragédias que é preciso cuidar do nosso jardim, pode ser um pouco isso. Cuidar das nossas plantas, da nossa própria seiva, dos nossos amores e adquirir uma certa honra que nasce da coragem de olhar com atenção para os fluxos da energia vital. Essa é a última frase, depois dela você pode voltar a correr para a distração mais próxima, a um clique.