Alice e o homem-objeto

imagem dadaísta

Enquanto esperava Lábios Charmosos na noite de terça-feira, Alice se esparramou na cama. Havia estendido um lençol limpo, o cheiro de lavanda subia do chão brilhante, onde terminara de passar o pano. Aquele processo viraria para ela um ritual, quando mais tarde abraçasse a ideia de convidar homens para sua casa apenas para ter o ânimo deixar o seu quarto limpo.

Alice faria 19 anos no fim de setembro, o calendário em cima de sua mesa marcava a data de 24 de agosto de 2016. Lembrava como exibia para si o orgulho de ter perdido a virgindade com 18 anos, era como na infância, em que o fato de não ser precoce com os meninos a fazia se sentir superior às outras garotas.

Quanta bobagem!— pensava agora. Superior eram as garotas livres de sua adolescência, que não precisavam ir ao confessionário paroquial quando se masturbavam.

Ah, o estrago que a educação católica fizera a sua personalidade! As vezes ainda sentia um estranhamento com o seu corpo, a sensação de desligamento quando tocava os seus seios, algo que a fazia pensar que aquilo não era ela, por mais que aquele fosse o seu corpo, tão parte de si quanto o cérebro que pensava ou o coração que batia (Alice não acreditava em alma).

A sua primeira transa era recente, aconteceu com um dos garotos mais bonitos que poderia imaginar, não importasse que, no ano passado, quando Cabelo Esvoaçante vinha grudento, participar da novidade da menina interiorana, e tocasse em seu joelho como quem diz “Hey, estou a fim de você.”, ela se sentisse incomodada. Naquele momento não queria ninguém, queria descobrir a cidade, o curso que escolhera, mas a verdade era que todos os amigos que até então se aproximavam, tinham a intenção de comê-la, apesar de naquela época isso não estar tão claro para a menina.

Começara com Mãos de Seda, amigo da D. Elza, zeladora do lugar onde Alice morava. Ele trabalhava com entretenimento, e também não era do Rio de Janeiro, o que o tornava solidário a ela, como dizia. Convidou-a para uma peça de teatro, a primeira que Alice assistira. Ela ficou encantada, mais ainda quando ele a levou a praia. Tudo era inédito para ela, não quis confessar que nunca antes tinha visto o mar.

Eles subiram em umas pedras distantes, o sol batendo no rosto, as ondas respigando na perna, ela estava feliz, grata por aquele momento. Não fosse a sensação duvidosa de saber se a proximidade do corpo de Mãos de Seda era tão necessária, se ele se esforçava por manter o seu corpo atrás do dela, como se respirasse em seu pescoço, apenas para protege-la dos perigos da cidade.

Ele dizia querer ser seu amigo, mas depois Alice percebeu que os olhos que a olhavam era de um lobo faminto. Dispensou a companhia na primeira oportunidade, e resolveu que depois do passeio nas pedras não se sentiria confortável para sair com aquele que, até o momento, era o seu único colega.

Lembrar daquela época, enquanto aguardava Lábios Charmosos, era para ela uma terapia. A garota era do tipo que rememorava cada episódio de sua vida, não sabia não problematizar cada uma das suas escolhas, pensava ser para si a sua própria psicóloga.

Até mesmo a recente compulsão por sexo, a fazia incorporar um espírito freudiano e pensar o que os pais poderiam ter feito para ela adotar esta postura. Sabia que eles a haviam criado da melhor forma que podiam, mas ela saíra de casa para quebrar os laços e estar ali, naquele noite, aguardando um homem desconhecido era o tipo do risco que a quebra da herança familiar pedia.

Aquilo era para ela uma libertação. Dar o seu corpo e receber o outro, uma expressão de sua própria vontade, a quebra de todos os valores morais e estéticos que construiu até agora. Morais porque sabia que o seu comportamento sexual não atendia aos padrões de moça comportada, tradicional, a figura típica e monogâmica que insistiam em fazer dela; e estético pois estar nua na frente de outro era um celebração de seu corpo, de sua beleza, a apreciação de marcas, tamanhos, texturas que carregava em si e que obrigaram-na em manter fechadas, obscurecidas em roupas que se adequassem ao considerado sagrado que ela carregava.

Lábios Charmosos chegou as 19 horas, interrompendo as reflexões de Alice. Trouxe consigo uma garrafa genérica de Smirnoff, bebida que amargou na geladeira do apartamento. Tornara-se a figura que Alice imaginara.

Alice o vê como um objeto, assim como a todos os outros homens, embora algumas vezes sinta remorso por isso, então, nessas ocasiões deseja ser do sexo oposto, para ter a prerrogativa de usar aos outros sem culpa.

Ela não é de toda fria, pensa também que se tivesse nascido homem poderia entregar flores ao seu amado, levá-lo a um jantar e cumprir com todos os papéis solidamente construídos nos últimos séculos de um cavalheiro. Fazer isto sendo mulher era muito difícil, e assim, a sua vontade de ser aquele outro a fazia tomar para si alguns esteriótipos ruins.

Naquele momento, no entanto, a experiência com Lábios Charmosos ainda era nova. No quarto ele insiste em não beijá-la na boca, Alice não faz muita questão. Mas ele beija os seus seios, e passa ali um bom tempo. Aprecia a menina, causa-lhe prazer de tal forma que Alice entende que se quebra mais um pouco da ligação hereditária, da distancia que há entre ela e o seu eu, enxerga os seios como algo passível de ser adorado. Através do outro ela se ama.

É assim, Lábios Charmosos como todos os homens é um meio de libertação para Alice, um instrumento de autoconhecimento, a transgressão necessária para a afirmação de si.

Alice manterá os encontros. Não irão se ver todas as semanas, não conversarão sempre. Ele admirará a menina pela sua escolha de livros, que verá na estante do quarto, aceitará a solidão e liberdade que ela irá reafirmar aos poucos. Compreende o uso que ela faz dele, ele próprio tem as suas motivações para estar ali.

Aceita que a garota não deseja namorar, e assim, ele próprio irá arranjar uma namorada. Os dois deixarão de se ver tempos depois, e Alice encontrará outras maneiras de transgredir, não por Lábios Charmosos mas pelas descobertas de si que realizou através de seu homem-objeto.