Paideia — um conceito clássico para uma educação revolucionária

Fragmento da pintura “A escola de Atenas” do pintor renascentista Raffaello

O ideal de educação no Ocidente tem a sua origem na Grécia Antiga, com a gradual construção do conceito de Paideia. Para além de uma simples palavra, Paideia é um complexo de práticas históricas relacionadas a cultura e aprendizado de um povo: o povo helênico. O que lembra os estudos sobre História Clássica, os velhos homens de mármore apresentados pelos professores de filosofia.

Nos tempos de Homero, o poeta da Ilíada e da Odisseia, a Paideia era difundida como sinônimo de educação aristocrática com a transmissão oral dos principais valores da época. Assim, os primeiros educadores gregos foram os poetas que ao narrarem as aventuras do herói imbuíam a população a aspirar os ideais de corpo e mente, de nobreza, de virtude, e a concretizar o aprendizado dos esportes, das artes e da palavra.

A honra aos deuses está intrinsecamente ligada a formação do homem na Grécia pré-socrática, onde buscava-se a harmonização da mente (intelecto), do corpo (física) e do coração (virtude).

É com os sofistas e o paulatino entendimento do mito como alegoria, que a Paideia ganha instrução formal no ensino do “trivium” (gramática, retórica e dialética) e depois do “quadrivium” (aritmética, geometria, música, astronomia) denotando o que atualmente poderíamos chamar de interdisciplinaridade na educação ou de universalidade das áreas do conhecimento.

Atualmente, no Brasil, a maioria das universidades seguem a linha departamental de organização interna. Em termos pedagógicos isso significa que as disciplinas são cada vez mais fragmentadas, incentiva-se a formação de muitos especialistas e poucos profissionais com a compreensão panorâmica dos saberes.

Há no Brasil uma quebra desse paradigma, um lampejo revolucionário de educação integradora, popular e multidisciplinar. Um desses lampejos tem viés institucional, guiado pelas duas universidades que buscam romper com o modelo padrão de educação no país e se aproximam da interdisciplinariedade encontrada no modelo da Paideia: a UFABC e a UFBA.

Nestas universidades, o estudante ingressa em um bacharelado com matérias abrangentes que vão desde matemática às ciências sociais, busca-se a universalidade do conhecimento, e depois, sem perder o enfoque interdisciplinar há a opção por uma graduação especifica na área almejada. O graduando não precisa escolher o curso que deseja se graduar logo que sai do ensino médio, esta escolha é feita através da experimentação da prática universitária e do mergulho nas vastas áreas do conhecimento.

A segunda expressão dessa revolução educacional nos mostra que os clássicos (lembre a famosa frase aristotélica do homem como animal político?) não estão tão distantes quanto pensamos. Ela nasce e se desenvolve nos espaços públicos de instrução popular e evidencia a ótica de arquitetura comunitária da educação, onde todo cidadão é construtor e influenciador da educação e da política.

Ela se encontra nas práticas sociais de construção dos saberes locais que tem se destacado através do funk, do rap, da fotografia, da escrita, dos saraus e eventos independentes que tomam as vias públicas e misturam, criam e alimentam a cultura, tradição, educação e política no país. As ocupações das escolas também são um grande exemplo disso!

No período helenístico clássico, com o abandono do pensamento mítico e a percepção de que o domínio racional se torna essencial ao homem público, o emparelhamento da História da Educação com a Filosofia se destaca. O filósofo é o sujeito que tem amor ao conhecimento, e que busca o saber em todas as suas áreas. Aristóteles, por exemplo, realizava observações da natureza desde a posição dos astros até a botânica, pesquisava o ideal ético que deveria ser seguido pelos homens da pólis até conceitos como amizade e amor.

A formação paideutica torna-se a completude do homem, que se alimentará de cultura literária, do uso da palavra, da ginástica, da música para compor o ideal do homem culto (dotado de cultura — popular,acadêmica…) e nobre (aquele que possui empatia com o outro) e, assim, tornar-se ativo na vida pública da pólis.