A bolha da realidade

e a exaustão de viver

Ilustração: Kathrin Honesta

A realidade consegue ser extremamente frustrante na maior parte do tempo. Parece que, quanto mais se sonha e deseja alguma conquista, menos chances você tem de conseguir.

É frustrante pra uma pessoa de 20 e poucos anos olhar para trás, ver todos os infinitos dias passados dentro de salas de aula, virando nada. Além dos trabalhos, de segunda a sexta, fazendo sempre as mesmas coisas e lidando com os mesmos tipos de personalidades, em diferentes pessoas, só esperando pelo fim de semana, quando finalmente se tem tempo para fazer o que realmente gosta, mesmo que seja ficar absolutamente em posição horizontal comendo e dormindo durante dois dias seguidos. Isso sim dá prazer!

A vida é exaustiva, suga as perspectivas dos seres humanos. Em menos de duas semanas em “ambiente corporativo” novamente, já me sinto vazia de novo, com vontade de sair correndo e gritando por ajuda. Pode parecer que não, mas ficar sentada 8h por dia, na frente de uma tela de computador, tendo que lidar com situações desagradáveis, colocando cada vez mais dinheiro na conta bancária de um CEO qualquer, que na verdade está se lixando pro bem estar de absolutamente qualquer outra pessoa que não seja ele mesmo, é exaustivo!

Já observou um hamster/rato/porquinho da índia andando em uma daquelas rodinhas dentro de gaiolas? Deve ter pensado “Que idiota, fica andando e nunca sai do lugar”. Tenho uma notícia para te dar: Você é exatamente igual! A diferença é que, ao invés de ficar dentro de uma gaiola, sem dúvidas deve ficar dentro de um escritório, depois dentro de um ônibus lotado e continua recebendo um salário medíocre no fim do mês como recompensa por ter sobrevivido mais trinta dias e sem reclamar de nada.

Sabe aquele seu chefe, tão legal, que vai almoçar com você de vez em quando e pergunta como está sua família? Na verdade ele só quer saber se você ainda serve para que ele ganhe mais dinheiro com o seu suor todos os dias.

As boas ideias e atitudes (que surgem de tempos em tempos e ganham grande visibilidade na mídia) são valorizadas porque elas não estão dentro dessas gaiolas que vivemos. São além de tudo isso, seja uma ONG que crie um movimento grande de pessoas para uma causa, um aplicativo inovador que ajuda uma parcela da população ou uma ativista que mostre ao mundo a verdade sobre algo/alguém.

Mas essas boas ideias custam a aparecer, não são frequentes. Sabe por que? Simples, porque quem as tem está ocupado demais, tendo que viver dentro de uma gaiola e se contentando com o pouco que recebe em troca de acabar um pouquinho mais com a saúde psicológica e física.

Louco demais pensar assim? Exagerado? Talvez. Mas não deixa de ser a realidade. Quando vi em uma série a frase “A vida adulta é onde os sonhos vão para morrer”, absorvi cem por cento disso, caiu a ficha de que todos os sonhos que tive algum dia foram diminuindo até se definharem em um espaço-tempo de cansaço, estresse e insatisfação que fui obrigada a viver. Afinal, gostando, sendo a favor ou não, vivemos em uma imensa bolha capitalista, na qual somos impostos a compra e venda o tempo inteiro, onde até nossa morte vale dinheiro (alguns mais, outros menos).