Quando menos é mais

Por que o excesso de opções, nem sempre, é motivo de felicidade.


Amanheci reflexiva. Culpa de um cara chamado Contardo Calligaris. Encontramo-nos por acaso. Era sábado à tarde e eu cumpria um dos meus rituais favoritos: ir à livraria.

Não era um sábado comum. Eu havia decidido singrar novos mares. Queria uma literatura diferente, algo que eu não tinha tanta familiaridade. Meu desejo era de romper o lugar comum, sair da zona de conforto e enriquecer minha experiência de vida.

Na verdade, eu queria sorver o mundo.

Eu não sabia muito bem por onde começar. Em meio a tantos títulos, uma capa específica me chamou a atenção. Era um tom de rosa clarinho, com um design minimalista — que eu tanto adoro. Nela estava grafada em letras miúdas: “todos os reis estão nus”.

Abri, então, em uma página aleatória. Era a 23. E nela, ele, de forma contundente, me questionava: “Liberdade pra que?”.

Confesso que fiquei confusa e precisava devorar todas aquelas linhas. Afinal, esse é um dos valores que eu mais preservo na vida.

Pra quem não conhece, Calligaris é psicanalista e escritor da coluna “Ilustrada” da Folha de São Paulo.

Ao examinar o fantástico mundo da mente humana, ele explica como o excesso de liberdade gerado pelo momento histórico e pela sociedade de consumo nos faz reféns de nós mesmos. Somos caça e caçador. Vítimas de nossos próprios anseios de multiplicidade.

Cita Barry Schwartz — autor do livro “O paradoxo da escolha: porque mais é menos” — ao dizer que a liberdade de escolha em meio a tantas possibilidades constitui, em verdade, um fardo.

Falar em clausura da liberdade parece estranho, não é mesmo? Soa até paradoxal. Mas faz sentido. Pelo menos pra mim. Alguém que se autoflagela vez ou outra por sempre querer fazer a escolha certa.

Nesse contexto, o autor diz que existem ,então, dois tipos de pessoas: Os maximizadores e os que se “satisfazem com algo suficientemente bom”. Aqueles não aceitam outra coisa senão fazer o melhor negócio, a escolha certa. Estes, ao contrário, conformam-se em nem sempre marcar, de bicicleta, o gol do jogo.

O assunto não me saía da cabeça. Logo, fui ao Youtube ouvir do próprio Schwartz o que ele queria dizer com isso.

Ao mesmo tempo em que pra mim fazia sentido — pois me fazia sentir — era estranho imaginar que o excesso de opções causava mal estar. Afinal, eu aprendi que se quisermos maximizar a felicidade dos cidadãos, devemos expandir as suas liberdades individuais.

Ora, a liberdade é boa, valiosa e indispensável para a vida humana. Disso eu nunca tive dúvida. Mas ao mesmo tempo aquele suposto paradoxo tilintava como um sino em minha cabeça. Parecia verdade…

Lembrei-me do mal estar que sinto ao me deparar com um cardápio tão cheio de opções. São carnes, aves e peixes. Assados, cozidos, fritos e flambados.

São milhares de profissões fascinantes no mundo. Você pode ser juiz, advogado, arquiteto, fotógrafo, social mídia, quem sabe blogueiro, ou Youtuber!? Há tantos novos caminhos a seguir…

O paradoxo da escolha — Google imagens

A propósito, eu gosto de toda a sorte de coisas e escolher uma delas me causa ansiedade.

Ah! Então é disso que eles estão falando… Daquele aperto no peito que chega sorrateiro quando achamos que é preciso fazer “A” escolha certa.

A sensação é de que só temos uma chance.

Logo, o medo de escolher errado paralisa. E aí você não faz nada. Nem feio, nem bonito, nem perfeito, nem mal acabado.

Se for assim, o mal-estar existe mesmo. Mas o problema está na liberdade ou no ser humano que teima em evitar as frustrações? A culpa então é do medo de se arriscar?

É possível que sim.

Rudyard Kipling diria que rir é arriscar-se a parecer doido. Chorar é arriscar-se a parecer sentimental. Estender a mão é arriscar-se a se comprometer. Mostrar os seus sentimentos é arriscar-se a se expor. Compartilhar as suas ideias e os seus sonhos é arriscar-se a ser rejeitado.

A vida é uma aventura e arriscar-se faz parte do jogo. O navio está seguro no porto, mas, certamente, ele não foi feito para isso.

Outro dia, li por aí que decidir é escolher e escolher é sempre abdicar e abdicar é perder.

Já o desejo desesperador de fazer a escolha certa e ganhar sempre, mais me parece medo. É aquele companheiro constante de quem só se atreve a caminhar se conhecer, de antemão, todas as pedras do caminho.

A vida é uma questão de escolha. Precisamos acordar todos os dias e decidir que tipo de pessoa nós seremos.

Nesse caminho, padrões muito elevados geram frustração, remorso e culpa. A propósito, quanto maiores as expectativas de perfeição, mais complexas nossas decisões. E nessa bifurcação, o perfeccionista só encontra dois caminhos: a paralisia, pelo excesso de possibilidades, ou o arrependimento da escolha.

Chega de maximização! Os maximizadores não toleram a escolha errada. E com isso, a única coisa que se ganha é o peso desse fardo.

Às vezes, é melhor pensar que tá tudo bem se não der certo. Não faz mal se o prato não for tão gostoso assim. Amanhã, a gente acorda e faz de novo. Noutro dia, a gente pede outro. E nesse ritmo, a gente faz, refaz e aprende. Afinal, antes feito do que perfeito.

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