Amanda Magrini
Sep 4, 2018 · 4 min read

A primeira vez foi aos 10 anos.

Um menino mais velho na escola me dizia todos os dias que eu era tão gorda que não conseguia evacuar. Eu sabia que era alguma coisa ruim, mas no meu ápice de inocência na primeira vez que ouvi a palavra, procurei na internet assim que cheguei em casa.

Foi a primeira vez que me senti insuficiente.

Nunca contei aos meus pais ou a nenhuma professora porque sentia que eu era a culpada. A culpa era minha por ser gorda.

A segunda vez foi aos 11 anos.

Logo que mudei de colégio, para um maior, tinha menstruado pela primeira vez há pouco tempo e as primeiras mudanças no meu corpo começaram a aparecer. Os seios se desenvolvendo, mas por ser muito pequena ainda, minha mãe nunca tinha me falado pra usar um sutiã. Até que, nos primeiros dias de aula, uma menina na sala fez questão de falar em voz alta na frente de todos "credo, fala pra sua mãe comprar um sutiã, tá com os peitos de fora".

Até hoje eu me pergunto o porque de ridicularizar uma criança de 11 anos por causa de algo tão natural como a puberdade - que acontece com todos.

Só que mais uma vez eu não contei pra ninguém.

Foi a segunda vez que me senti insuficiente.

A terceira vez foi aos 12 anos.

Quando perdi meu vô.

Ele era um ser de luz. Aqueles olhinhos azuis me acalmavam mais que tudo, eu ficava leve com ele. E a ida repentina dele, levou também um pedaço do meu coração.

Eu quebrei.

Nunca gostei que ninguém me visse chorando, apesar de chorar feito uma doida por tudo. Esse foi o momento que eu mais cresci na vida. Guardei a minha dor no bolso, as minhas inseguranças, meus medos e me fazia de forte na frente de todo mundo. Eu pensei que tinha que ser forte pela minha mãe, pela minha tia e pela minha vó. Ali eu deixei de ser criança. Não fazia mais sentido.

Mas, ainda assim, foi a terceira vez que me senti insuficiente.

A quarta vez foi no ensino médio. Aos 15/16 anos.

Eu nunca fui magrinha como a maioria das minhas amigas. Não tenho traços delicados e nunca fui baixinha. No colégio, era bem difícil estar na roda das meninas, ouvi-las falando dos namoradinhos, dos meninos bonitos da escola, enquanto nem um beijo eu tinha dado ainda. Ninguém se interessaria pela menina engraçada, gorda e que era amiga de todos os meninos. E isso foi bem pesado aquele tempo. Eu me sentia excluída e, mais uma vez, extremamente insuficiente. Na época, eu usava bastante o tumblr e passava a maior parte das noites rolando as páginas que tinham milhares de formas de como emagrecer com dietas extremas e absurdas, sem falar no grande número de publicações tóxicas sobre como se automutilar sem deixar marcas visíveis aos outros. Mas, a ideia de me cortar com um pedaço de lâmina sempre me assustou muito. Ao mesmo tempo em que eu queria sumir, me sentia um lixo por não conseguir consumar o ato. Então, eu escolhia outras formas de me machucar pra abafar a dor que eu sentia por dentro, mas sem que ninguém percebesse. Eu arranhava meus braços e as coxas até arder. Sentia um alívio na cabeça, no corpo.

Só que ficou pesado demais pra aguentar tudo sozinha. Eu chorava quase todos os dias e me isolava cada vez mais quando estava no colégio.

Escrevi uma carta para os meus pais no computador e mostrei primeiro a minha mãe. Confesso que não sei de onde eu tirei coragem, porque apesar de sentir tudo aquilo, o meu maior medo sempre foi decepcionar meus pais.

Desde pequena eu tinha a consciência de tudo o que eles faziam por mim e pelo meu irmão, todos os sacrifícios e batalhas. E eu me sentia culpada. Até hoje. Por não conseguir retribuir. A maldita insuficiência se faz presente, sempre pra lembrar o quanto eu falho em ser a filha que eles queriam.

Nós tivemos uma longa conversa, eles sempre me apoiaram e me amaram incondicionalmente. Nunca fui a um psicólogo. E eu não os culpo. NUNCA! Eles só pensaram que era uma fase turbulenta da adolescência que passaria, todos os pais pensam assim, é normal.

Mas não passou.

A quinta vez que me senti insuficiente dura até hoje.

Todos os dias, essas vozes do passado me lembram - mesmo que baixinho - que eu não sou capaz. Que eu não sou suficiente. Inteligente o suficiente. Bonita o suficiente. Interessante o suficiente. Dedicada o suficiente. E eu fico exausta nessa luta diária contra todas essas vozes. Tem dia que é mais fácil. Que eu boto um sorriso no rosto, esqueço tudo e tento ficar tranquila.

Quantas frases motivacionais eu já falei na internet? Tem gente que me elogia, diz que eu sou evoluída e que aprecia meus conselhos. Mas, na real... Queria conseguir segui-los.

A depressão não é algo que some.

Ela vai e vem.

Tem períodos bons e tem períodos péssimos.

A gente aprende a conviver. Aprende a aceitar que é uma coisa que não vai embora de vez.

Se eu pudesse dizer uma coisa pra Amandinha de 10 anos seria isso: "Não deixe seu brilho se apagar por pessoas apagadas e machucadas que precisam machucar o outro pra se sentirem melhor consigo mesmos. Aos 16 anos, não deixe que seus parentes, tias, tios, digam que você nunca vai arrumar um namorado porque está acima do peso. Você é linda do jeitinho que é. É inteligente. É engraçada. É uma boa filha. Nunca aceite que te digam o contrário. E não se machuque. Pode aliviar na hora, mas não vale a pena. As coisas vão melhorar. Pode demorar, pode doer muito ainda, mas eventualmente elas melhoram. Aos pouquinhos e com muita paciência."

Olhe pra pessoa ao seu lado. Na sala aula, em casa, na rua. Ela pode precisar de um olhar, uma abertura pra conversar, uma pontinha de interesse. Todos têm suas próprias batalhas. Se tivermos mais empatia, muita dor pode ser evitada.

    Amanda Magrini

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    jornalista. estamos em constante mudança. escrevo o que vem da alma.

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