O nada.

Ela chegou cansada, toda vestida caiu sentada no sofá da sala e segurou o celular. Ficou ali, anestesiada pela recordação do dia. Experimentando a sensação de embriaguez involuntária que tomava conta dela. Podia sentir a energia fatigada transitando por seu corpo lentamente, podia sentir os músculos do corpo movendo conforme a respiração ia e vinha com fluidez.

Perdeu-se por vários minutos no nada. O nada da sala vazia cheia de móveis. O nada da casa silenciosa cheia de sonhos de uma família que dorme tranquilamente escadas acima. O nada da noite quente do lado de fora da porta, da escuridão que invade sem timidez todos os cantos do jardim entre as flores cintilando ao brilho da lua. O nada no cheiro da comida, que ainda morna, aguardava nas panelas em cima do fogão.

Perdeu a noção do tempo meditando sobre o nada que preenche tudo. Sobre a homogeneidade das coisas à sua volta. Sobre a beleza do saber, do descobrir, conhecer. Sobre a magia da dúvida. Sobre o incerto. Sobre ser nada e tudo.

Desligou-se do mundo.

Acordou suando com mosquitos zumbindo a sua orelha e pos-se de pé num pulo. Faltavam três horas para o começo de um novo dia.

Foi pro quarto, despiu-se rapidamente, pousou a cabeça no travesseiro e antes de ser absorvida pelo conforto da cama, sentiu-se feliz.

Felicidade essa causada por saber que tudo faz parte do mesmo todo.

O todo cheio de incertezas. O todo que ninguém conhece.

O todo repleto de nada. E aí dormiu.

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