
eu continuo sozinha e apavorada.
as vozes de antes parecem ecoar na minha cabeça, como se o silêncio fosse uma realidade distante. é horrível sentir frio sem ninguém tocar sua epiderme como forma de aviso: eu estou aqui. mas ninguém fica. todo mundo passa em quilômetros por hora sem sequer notar meu desespero.
na outra noite, eu sonhei que tinha alguém. e isso se torna um milhão de vezes mais difícil. porque quando a realidade te arranca do sonho e te joga num quarto escuro e sem vida, você sente sua pele perfurada e seu sangue esguichando na veia.
eu ainda estou aqui. mas eu não queria estar. eu queria estar longe, num outro mundo, num outro corpo. podendo reinventar novos sentimentos e sentido novos sabores e desejos e afetos e tristezas e, ah, sei lá, um montão de outras coisas.
estou cansada de morrer aos poucos. não suporto mais o vazio do quarto.
e eu ainda estou aqui.
