13 reasons why não é uma série ruim se você assistir até o fim

Na verdade eu fiquei foi é bem mal

Todas as mulheres que você conhece têm uma história de abuso para contar.

Todas.

Nem sempre são histórias que podem ser tipificadas como crimes ou violações dos direitos humanos, mas abuso é abuso, e pequenas violências reverberam por anos. E 13 Reasons why é sobre como todas essas “coisinhas” que você varre pra debaixo do tapete crescem até se tornarem insuportáveis.

Na série, a adolescente Hannah Baker comete suicídio, e grava treze fitas k7 explicando os motivos para tanto. Hannah não é uma narradora confiável, mas as razões listadas, que parecem tão banais, tornam-se sintomas de uma solidão muito maior; uma violência muito mais profunda que envolve, diretamente ou não, grande parte do seu círculo social.

É cruel afirmar que a adolescente cometeu suicídio por fraqueza, ou tentar culpabilizá-la exclusivamente por sua morte. Porque a violência não é um fenômeno abstrato que acometeu Hannah de forma isolada. A violência é cometida por pessoas, frequentemente amparadas por normas sociais muito bem-estabelecidas, e Hannah é tanto parte dessa sociedade quanto vítima dela.

A série tem diálogos sofríveis e um protagonista bem lerdo que demora tempo demais para ouvir as treze fitas k7, mas acerta ao mostrar que essa violência pode se tornar insuportável, apesar de muita gente estar aí, suportando. Doenças mentais não surgem da noite para o dia, e misoginia é um gatilho bastante comum para um processo depressivo doloroso que pode culminar em suicídio.

A doença mental de Hannah não é perceptível para as pessoas mais próximas, como seus pais, que não conseguem interpretar seu desejo de se isolar como um sintoma. E a ajuda profissional que Hannah procura dá a ela um aconselhamento completamente equivocado, num momento que ela mal consegue expressar a dimensão da sua dor.

Os golpes que Hannah sofre culminam num crime horrível do qual ela não consegue sobreviver, levando a uma decisão inconsequente, trágica e tremendamente dolorosa para todos que a cercam. Suas justificativas são o reflexo de sua doença mental, mas também a lembrança de que todos somos, em algum grau, responsáveis pelo bem-estar uns dos outros.

“As coisas têm que melhorar”, diz o protagonista lá pelo último capítulo da série. Talvez a solução seja dar mais atenção para quem nos cerca, apresentando alternativas para sua existência, dolorosa, ao pelo menos ouvir com atenção seus problemas. Não são soluções mágicas, mas ajudam quem está contemplando o abismo a repensar.

É preciso amar mais. E, se você tiver mais sorte que Hannah, encontrar ajuda de profissionais qualificados capazes de dar a você a base para viver, e não apenas sobreviver, nesse mundo cão em que mulheres morrem.