Não sei e tudo bem

Uma moça me perguntou uma vez como eu poderia sair com duas pessoas ao mesmo tempo. Respondi que apenas não mantendo uma ligação afetiva forte com nenhuma das duas. Básico.

Insinuaram que isso teria algo a ver com poligamia. Deus, não. Só mantenho minha integridade quando sei que preciso. Somos todas meio mal resolvidas com algo, de qualquer maneira. Cuidamos de fantasmas com mais carinho do que cuidamos de nós mesmas, não queremos um segundo de solidão. Daí ela e a ex. Eu e a amiga. E eu mesma. E aquela outra garota que nem sei. Bem.

Eu estive apaixonada. Tive uma paixão delicada e sem tesão. Uma empolgada que não compartilhei. Uma nervosa, com cautela, com carinho, com vontade, com medo. Tudo ao mesmo tempo. Umas que não sei como não fluíram. E MUITAS platônicas. Minha maior especialidade. Me nota, te faço um bolo. Não garanto que dê certo, mas tento.

Tinha dificuldades em processar a paixão como sendo uma intensidade de dois gumes. Onde você grita e arranha e implora pelo-amor-de-deus-não-pára e pelo-amor-de-deus-não-quero-parar e também arrepia por inteiro só de entrelaçar os dedos com ela. É bom tudo isso. É a porra de uma preciosidade que faz falta quando se acostuma com ela. Uma delícia, uma tragédia. Terrível quando se tenta contar os dias. Afinal, por que haveria de durar, né?

É gostoso ser ouvida e apreciada. Ter a saudade de “já fazem quinze minutos que não te vejo”. E “quando quiser, o convite pra sentar na minha cara se estende”. É uma delícia a observar cerrando os olhos. Macia, quente, me matando um pouquinho de uma forma no mínimo agradável.

Cacete de ligação afetiva.

Não dá para negar o curso de um rio. Afinal, ele carrega sais minerais, folhas, insetos mortos. Tudo o que carrega é perfeitamente perceptível. Você não flutua de cima,bloqueia o fluxo e tudo fica bem. Não tem como mudar os fatos e reescrever o dicionário. Certos pontos não podem ser ignorados. Certos pontos não podem ser ignorados. Certos pontos não podem ser ignorados. (O que quer de mim?)

Ser vaga, criar flores num limbo, estar sempre esperando um não-sei-o-quê. Quer fazer as coisas da maneira certa, na escola eu não podia inserir “coisa” no meu texto, não sabemos o que colocar no lugar de “coisa” porque não sabemos que coisa é “coisa”.

Me recuso a ser um preenchimento de vazio, não quero cavar um buraco, virar um túmulo, fingir que nada está acontecendo. Eu calço suas luvas e ela desamarra meus sapatos. Sempre tirando e pondo e simulando um equilíbrio. Fazer as coisas da maneira certa. Às vezes, tenho medo de ter uma opinião e isso perturbar a tal preciosidade que guardo, os estalinhos das festas juninas.

Dar alguns passos para trás depois de uma corrida até sabe-se lá onde. Fingir que não houve corrida. Fazer redes de barbante com os dedos. Criar flores num limbo. Matar o tempo, não nos importamos, dar uns dias. Perder a conta. Tentando fazer a coisa certa, brilhando no escuro, sorrindo nas cobertas. Não entendendo nada.

Nossa coisa é apenas nossa coisa então. Um pequeno privilégio. Só não sei o que faço com isso, mas continuo fazendo.

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