Como é estar na crise

Acordo com duas mãos em meu pescoço tentando me sufocar. A respiração se torna um desafio. O desespero toma conta do meu coração que, acelerado, bate tão forte que machuca cada centímetro do meu peito calejado. As mãos continuam tentando me sufocar. Choro se alastra. Dessa vez, é o travesseiro posto por cima de meu rosto, me prendendo a respiração até a sensação de quase-morte aparecer, nesse momento para. As mãos se afastam e, assustadoramente, elas são as minhas.

Nesses dias de sufocamento, todas as vinte e quatro horas do dia são vividas à flor da pele ou à flora alguma. É oito ou oitenta. Sinto muito ou sinto nada. Gostaria de ficar dentro de uma caixa de geladeira sozinha, com meu nó na garganta, que não solta de jeito algum, para eu dizer o quanto isso tudo me machuca. Nó firme. Nó preso. Meus olhos perdem a habilidade de enxergar cores e o mundo todo se torna um cenário pós-apocalíptico.

Nesse dia, também, me culpo por todas as frustrações do passado que, às vezes, nem foi minha culpa e desprezo meu futuro, porque chegar nele não faz mais sentido, visto que o presente já está destruído. Não consigo me manter próxima aos meus. A voz, já baixa, fica no mute e um vento sopra forte dentro da mente já vazia — as vezes neurótica — causando o incrível ato de nada.

Nesses dias também sinto mais raiva do mundo e de tudo que vive nele, principalmente de mim. Uma sequência de questionamentos sem fundamentos são respondidos como justificativas de todas humilhações passadas da minha vida. Mereci. As mágoas aumentam e criam-se novas. Nesses dias, ao acordar, a felicidade é pensar: “menos um dia”.

Sinto que o mundo não precisa de mim. Uma das coisas que mais penso é em como eu posso não viver por aqui e tornar minha vida ridícula menos dolorosa possível e, ser tão imprestável a ponto de falhar na hora do ato de deixar de ser o que sou.

O tesão se perde, o afeto à vida também. O desejo é ficar na minha cama o dia inteiro. Dormindo, porque dormindo tudo isso dói menos. E sabem o que é tudo isso que me machuca tanto?

Nem eu.

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