Curando males

Da série white people problems aos 20, apresento à vocês a decisão que está servindo de teste para a minha vida e fazendo o meu curto tempo ser otimizado com coisas que, de fato, acrescentam algo na minha vida — eu acho.

Aos 10 anos fui apresentada ao Orkut. Lembro que fiquei uns 20 minutos tentando pensar em um e-mail que eu pudesse usar com meu nome, mas não deu; aparentemente existem muitas Amandas Nonatos pelo mundo. O primeiro e-mail foi o mais constrangedor possível. Minha amiga me incentivou a brincar com o nome, então eu fui “thuthuquinhasantos” por anos sequentes. Me incomodava muito, pois segundo ela, era para ser “tchutchuquinha”, mas ficou com a sonora de “tutuquinha” mesmo.

Nesse tempo, eu não entendia muito bem as funcionalidades das redes sociais. Era um lugar aonde eu poderia ver comunidades, mandar recados aos meus amigos, postar algumas fotos e ver como anda a vida da galera que mora longe. Como eu, no auge dos meus 10 anos e “thuthuquinha” não tinha acesso a internet, gastava as moedas economizadas para ir a lan house ou usava o computador por 15 minutos do McDonald’s lá do Shopping Marketing Place, na Zona Sul de São Paulo. Era o esquema com a molecada: comprar casquinha de sorvete e ganhar a liberação de 15 minutos de internet. Era Orkut sem pensar duas vezes.

Anos à frente, o vício era tanto que tentava ligar o computador escondida da minha mãe — que me proibia de ficar muito na internet — só para ter o prazer de olhar o Orkut. Olhar mesmo. Passar o olho. 10 minutinhos perdidos e correndo risco de chinelada por nada. Nessa mesma época, já com uns 13 anos, descobri o Twitter e era O CANAL de falar tudo e nada ao mesmo tempo. Aquilo matava 20 das 24 horas do dia (mentira, mas quase).

A outra onda do momento foi quando, em 2011, apareceu o famigerado Facebook e daí para frente a minha experiência com as redes sociais foram derradeiras. O dia inteiro ou os intervalos de compromissos rolando a barra do feed vendo absolutamente nada. Ou quando via, a postagem se resumia em discussões políticas que mais se assemelhavam em disputa de ego, muita opressão à mulheres, LGBTs+ e negros/as, romantização ao suicídio, romantização ao relacionamento abusivo, mais falatório sem nexo, até o dia que eu surtei e procurei um psicólogo.

É sério. Claro que não foi só pelas redes sociais.

Chegou um momento da minha vida que eu vi no Facebook um ambiente insalubre demais para a gente que já está com o psicológico desgastado. Sentimos pelos deboches, notícias ruins e discursos de ódio selecionados e sequentes enquanto perdemos um momento que poderia ser importante do nosso dia.

A primeira vez que eu evitei a plataforma foi quando noticiaram o caso de estupro coletivo em jovem do Rio de Janeiro. Aquilo serviu de gatilho acertando dentro da minha cara. Não aguentei as piadas e os comentários de acusação à vítima que muitos faziam em troca de likes — b i z a r r o.

Insisti por um tempo até que tomei coragem e desinstalei o aplicativo, assim evitando perder minutos em tortura mental vendo a timeline. Nesse tempo limpa de Facebook, eu descobri plataformas super interessantes como o Médium e, ainda consegui ter um hábito de organização que me orgulha — mas que pode melhorar, é claro.

Acredito que a gente começou a usar errado determinadas plataformas na rede. Damos importância demais para o que deve ser mostrado e não para o que deve ser feito, além de provocar sentimentos emulados pela vida do outro e inquietação pela nossa, com o simples e imundo objetivo de ostentar.

Venho por meio deste relato todo dizer que é possível e que quando a abstinência bater na porta querendo que você apenas abra e fique rolando o feed, você pode vir aqui e escrever um texto falando sobre isso.

Ajudou durante o tratamento na terapia.
E está ajudando agora.

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