Cabelo com vida própria (A Alopecia em minha vida)

A última crise séria de Alopecia que eu tive, há cerca de 1 ano e meio, me levou a raspar a cabeça com máquina zero. Eu comecei a ficar muito angustiada com os cabelos caindo. Encontrava cabelo no travesseiro, em todo o chão da casa, na pia do banheiro, nas roupas, enfim. Pra onde eu olhava, tinha cabelo caído. Até na comida o danado mergulhava de cabeça. Então, decidi parar de vê-lo cair "cortando o mal pela raiz", literalmente.

A partir daí, ele fez a única coisa que poderia fazer: começou a crescer. Claro que não foi apenas isso. Meu processo de autoconhecimento se aprofundou. Decidi mudar de profissão, fechei empresa, comecei dois cursos novos para me profissionalizar no novo caminho, e a vida ainda me deu uma rasteira daquelas, levando meu pai embora desse mundo. Tudo isso me fez revirar as entranhas em um processo tão profundo quanto um abismo infindo.

A Alopecia é como se fosse um termômetro. Sinaliza que algo não vai bem, que não estou inteira, ou que não estou assumindo algo importante, ou ainda que preciso dar limites a algo/alguém. Queria não precisar mais dela para olhar esses aspectos em mim, e sinto que estou nesse caminho de despedida desse sintoma que — pelo motivo que for — foi tão necessário para a minha alma.

Mas o mais curioso disso tudo é que agora, depois de crescer um bocadinho, meu cabelo tornou-se cacheado. Meu pai e minha mãe sempre tiveram cachos, mas eu nasci e cresci com um cabelo liso e fino, louríssimo quando criança e chegando a castanho claro na vida adulta. Mas sempre liso e fino, mesmo que em muita quantidade. Não parava uma presilha nele. E sim, tenho fotos pra provar! Rs

Fiquei muito surpresa ao perceber que o meu cabelo estava cacheando. Não por não gostar, mas principalmente por não ter a menor ideia de como cuidar de um cabelo cacheado! Conversei muito com amigas, testei alguns produtos — procurando o mínimo de química possível, e ainda usando um shampoo manipulado pela minha dermatologista — e acho que agora já estou começando a me entender com ele. Também estranhei a minha imagem no espelho. Ainda estranho, às vezes, e talvez demore algum tempo até eu me acostumar com esse novo Eu cacheado. Mas tenho escutado elogios espontâneos, e isso ajuda, é claro.

Acho que desapego tem sido a palavra chave desse momento da minha vida: desapegar do passado como um todo, desapegar de coisas materiais que não me servem mais, desapegar de ideais antigos, e me abrir para o novo, para aquilo que o universo tão gentilmente me reserva. Aceitar-me como sou (e estou) e assumir isso tem tudo a ver com a cura para essa doença, então estou conversando muito comigo mesma para desapegar da Amanda de cabelos lisos e abraçar com tudo essa nova Amanda cacheada.

Isso se meu cabelo gentilmente resolver parar quieto na minha cabeça, é claro. ;)