- Glória?

- Diga, meu velho!

- Minha velha, essa doença não se cura, tô sentindo que a minha hora tá chegando, e antes de morrer eu tenho duas coisas pra te falar. A primeira é que eu morro com a tristeza de não ter deixado nenhuma pensão pra ti, mas eu sei que os nossos filhos te ajudarão com o maior gosto, isso me deixa em paz. A segunda coisa é sobre o teu futuro. Não quero que tu mores na casa de nenhum filho. Fique na nossa casinha mesmo. A casa dos pais sempre será a dos filhos, mas a dos filhos nunca será a dos pais.

Dez dias depois ele morre, deixando aquela viúva com uma promessa no coração. Não precisou declarar amor em seus últimos dias. Passara toda uma vida dizendo o quanto a amava e a despedir-se diariamente com um beijinho logo cedo de manhã, antes de ir para o trabalho. Fato esse que a vovó Glória sempre gosta de relembrar com um sorriso no rosto. Basta que qualquer neto se disponha a ouvir as lembranças da doce (mas nem tanto) velhinha (mas não muito) que mora sozinha (se não contar com o filho divorciado) em sua casinha (como certa vez pediu um homem moribundo).


Memória da minha avó. Ela lembra da infância e eu não lembro nem de ontem.

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