Espectro da Responsabilidade Afetiva

A gente costuma pensar que as coisas são preto no branco, mas a maioria delas normalmente não é. As coisas costumam ser um espectro acinzentado bem estilo arco íris canino mesmo. E pra mim, a questão da responsabilidade afetiva é uma delas. Não é um mero caso de ter ou não ter, mas como ter.

Desenho Topper da minha visão sobre

Antes de tudo devo dizer que esse assunto me é muito caro. Até porque já estive nos dois lados do espectro e hoje tenho visto que o caminho é de fato o equilíbrio, o meio, a dose certa.

Eu poderia iniciar falando o que é responsabilidade afetiva, mas pra mim seria como definir “sombra” ou qualquer outra coisa relacional cuja definição fica mais fácil através do conceito daquilo que ela não é. Então, o que não é responsabilidade afetiva?

De um lado temos a irresponsabilização, aquela postura que procura de todas as formas isentar-se de qualquer responsabilidade pelo impacto emocional exercido na pessoa a qual está se relacionando. Aqui o pressuposto é: “teu coração, teus sentimentos, se vira ae”.

A irresponsabilização tem duas apresentações básicas. A primeira é a clássica babaquice: a pessoa só pensa nela e não pensa em um segundo sequer na pessoa com quem está se relacionando. É a pessoa que te promete mundos e fundos, ilude, mente, trai e no final sai tranquila afinal, nada daquilo foi com ela. Aqui além de não haver a ideia de diálogo e responsabilidade relacional compartilhada, não há sequer a ideia da existência de um outro que importe.

A segunda se traveste bem fácil de responsabilidade, pois apesar de não ter a noção de responsabilidade compartilhada, já pelo menos se tem a noção de que existe uma outra pessoa. Só que é isso: existe uma outra pessoa e preciso avisá-la que o problema do que ela sente dentro desse relacionamento é dela. É aquela pessoa que faz um lembrete constante de que provavelmente não vai dar certo, que a pessoa está escolhendo se relacionar com ela e que n coisas ruins podem acontecer e a pessoa vai se machucar. Bom, que o futuro é incerto a gente sabe. Mas minar a segurança e evocar ansiedade de um futuro distópico a cada instante que estão juntos não é lá a melhor forma de mostrar cuidado com os sentimentos daquele que se quer bem. Já ouvi um praticante desta que a ideia é sofrer antecipado para não sofrer na hora, o que bem: não funciona. Você acaba sofrendo duas vezes, uma pelo rompimento e outra por esse fantasma de catástrofe que permeou o relacionamento todo. É bom lembrar também que a pessoa que faz isso, normalmente o faz com o intento de quando (e se) der errado poder falar: “Putz eu te avisei não é?”, quase um “Quem mandou continuar?” e dessa forma, não sentir a dor do outro (porque por mais que seja pior levar pé na bunda, terminar com alguém que você gosta não é isento de dor também).

Aí a gente dá um pulo pra outra extremidade disfuncional da régua: a superresponsabilização. O principal recurso da extremidade da irresponsabilização é a fala, enquanto que deste lado temos a ação em si. Se a pessoa que se isenta fala, fala mas continua a relação, na superresponsabilização ela deixa de falar e parte para a ação. São aquelas pessoas que vão terminar com você pelo seu próprio bem, que não vão começar a se envolver com você pela possibilidade de te machucar.

E desse tipo você pode pensar: “mas nossa que pessoa altruísta maravilhosa essa” mas meh, não. Se no lado oposto há uma impressão de impotência em relação ao outro, aqui existe uma impressão de onipotência, como se você fosse capaz de tomar decisões pelo outro. É ignorar a vivência e o poder de escolha de cada um, ter um cuidado paternalista e negligenciar o ser inteiro que é a pessoa com quem nos relacionamos.

E o que nos resta então? A exata área em que se tem noção da sua responsabilidade pelos próprios atos, a responsabilidade que o outro tem sobre a existência dele e a responsabilidade compartilhada do relacionamento. Problemas que surgem do relacionamento não se resolvem jogando a bomba no colo do outro ou pegando ela e saindo correndo sozinho. Elas se resolvem juntos, com cada um ciente da sua parte nisso.

Responsabilidade Afetiva pra mim é ter noção do como o outro afeta as minhas emoções, como as minhas emoções afetam o outro, o que eu posso fazer a respeito disso e o que a pessoa pode fazer a respeito disso. O que pode ser trabalhado em diálogo e o que tem que ter um tempo da pessoa trabalhar nela mesma.

Não é afastar-se mesmo gostando da pessoa, tampouco ficar e pilhar ela com seu possível afastamento, constantemente. É sentar, expor o que sente e se a pessoa concordar em ficar, acreditar que ela tem capacidade de arcar com as consequências disso bem como você tem, ao ouvir aquilo que a pessoa tem a dizer.

Para ter responsabilidade afetiva você tem que ter uma honestidade cuidadosa e uma clareza preocupada para com a pessoa que você se relaciona. Se ela está insegura sobre uma outra pessoa que te desperta desejo espero que não fale “eu acho ela bem gostosa na real, faz um tempo que to bem afim. mas não sei porque você tá se preocupando com isso” mas também não diga “não amorrrrrr nada a ver!!”. Sempre há uma forma sincera e preocupada de transmitir a informação necessária, procure esta.

Relacionamentos são contratos implícitos ou explícitos em permanente construção. Converse com a pessoa para estabelecer, converse de novo sempre que uma das partes achar que for necessário. Isso é ser responsável, é ter um relacionamento possível, maduro e saudável. Sem contos-de-fada e sem pesadelos. Saiba sempre o que é seu, o que é do outro e o que é dos dois e esteja sempre disponível para melhorar ou ajudar a melhorar nesses três âmbitos.

Tenha consideração por essa pessoa que está com você. Enxergando ela como você se enxerga: um ser adulto, complexo, dotado de afeto e de razão. Assim como o afeto pode fazer essa criatura se machucar, a razão a permite dialogar e tomar suas próprias decisões quando munida da consciência do contexto e da realidade. E o diálogo é a chave. Ter responsabilidade afetiva, é, afinal de contas, relacionar-se no sentido mais estrito da palavra. Ver esse todo que é o outro bem como enxergar esse todo que nós somos, e o todo que forma-se dessa relação, lembrando-se sempre que a comunicação vai ser o que vai deixar todas essas partes saudáveis.