Não tem salário mas tem mesa de sinuca e ping-pong
Passeando pela timeline do site ao lado me deparei com esse print de uma oferta de estágio.

A chuva de comentários negativos não foi nenhuma surpresa, óbvio, mas só soltar os cachorros não adianta, a gente precisa problematizar e discutir essas coisas afim de entender como chegamos até aqui e a importância de uma COMUNICAÇÃO ESTRATÉGICA.
As startups têm tomado conta do mercado e trazido um novo modelo de estrutura (e cultura) organizacional. Uma nova linguagem e perfil de relacionamento com os clientes, stakeholders e colaboradores chama a atenção principalmente dos jovens. Uma geração sedenta por mudanças em esfera global, principal usuária de toda a tecnologia disponível e dona de uma energia turbo power conectada não quer saber de mais do mesmo.
Ambientes de trabalho despojados, no dress code, cafés, espaços de descanso e lazer, cervejas, música, snacks, fantasias, mesa de sinuca e outros atrativos são propostas dessas pequenas (algumas nem tão pequenas mais) da tecnologia. E é claro que boa parte das pessoas (acho que só as rabugentas que não) querem fazer parte disso. Um lugar que estimula a criatividade, te percebe como indivíduo e zela pela sua saúde mental é mesmo uma janela com vista pro paraíso.

Mas aí entram duas questões que são as protagonistas desse texto. De um lado um posicionamento abusivo de algumas dessas empresas e do outro uma percepção preocupante de alguns jovens.
A empresa apresentada no print usou de uma linguagem informal para atrair jovens que acreditam que trabalhar em uma startup que permite “falar as merdas que quiser o tempo todo” e que seja “um parque de diversões para quem realmente gosta de aprender” é a melhor oportunidade da vida, ainda que sem salário, ainda que sem horário de trabalho definido, ainda que VÁ ATRAPALHAR VOCÊ NA FACULDADE!
Não é.
Se a intenção da ChefsClub é se passar por desconstruidona ela está fazendo isso muito errado. Mas se é passar vergonha ela tá fazendo certinho. Vou comentar isoladamente alguns dos “benefícios” citados na vaga, mas atenção, contém ironia.
1- Não tem remuneração nos 3 primeiros meses.
Esse nem de longe é o maior problema do anúncio. Aqui no Brasil isso pode ser visto como absurdo mas lá fora muitas grandes empresas oferecem estágios não remunerados em troca de DESENVOLVER um profissional para o mercado em que ela atua. Muitos dos grandes nomes do mercado financeiro, por exemplo, começaram em estágios não remunerados. Mas essa possibilidade cai por terra nos itens seguintes.
2- Quando tiver remuneração não vai ser melhor/igual aos seus amigos que já estagiam, vai ser pior.
Já te desvalorizam logo na entrada.
3- Volta e meia tem que trabalhar fds, à noite ou super cedo.
Afinal de contas a faculdade é que tem que se enquadrar ao horário do estágio e não o contrário.
4- VAI ATRAPALHAR VOCÊ NA FACULDADE!
Gente, cês pesquisaram o significado de estágio?
5- Não tem “job description”, você pode fazer de tudo um pouco.
Em nenhum momento a empresa definiu de qual curso precisa ser o candidato. Ou seja, qualquer um serve, para fazer qualquer trabalho.
6- Não tem gente pra ensinar tudo o tempo todo, tem que se virar.
A auto-gestão é uma característica importantíssima para qualquer profissional, inclusive para um estagiário e especialmente para atuar em startups que têm ritmo acelerado de trabalho e de mudanças. Mas ela precisa ser desenvolvida e é pra isso que existe o estágio. Para que os jovens sejam preparados. Para que eles cometam erros. Para que eles sejam ensinados, o tempo todo, sim.
7- Tem um monte de gente que se zoa o tempo todo e faz uma bagunça terrível. Caso você seja mais da “paz e tranquilidade” provavelmente vai se dar mal.
Eu me sentiria super à vontade com tamanha receptividade.
8- SOMOS MERITOCRACIA NA VEIA. A última estagiária que entrou nas mesmas condições com 1 mês e meio, por mandar super bem, começou a ser remunerada.
Eu fiquei louca aqui por saber que a empresa pagou a moça por (PASMEM) ter trabalhado. Achei tendência.
9- Mas realmente a remuneração, a curto prazo, é baixíssima, NÃO VENHA PELO DINHEIRO.
Ainda bem que todo mundo trabalha por esporte e diversão. Ainda bem também que no Brasil o estudante tem passe livre e alimentação gratuita, tá sussa! Mas sério, se não for pelo dinheiro ou para ser ensinado é pelo o quê? Tem Xbox, é isso?
10- É uma startup, ou empresa doida de tecnologia que faz um monte de coisa doida para ter um crescimento doido.
Que doideira, hein?
11- Conecta consumidores a restaurantes tops, com benefícios.
Finalmente o benefício apareceu (pra alguém).
O CEO e Co-fundador da empresa, Guilherme Mynssen, comentou na publicação e aí eu tive certeza da importância do trabalho de um Relações Públicas no mundo.
Oi, pessoal. Sou o CEO e co-fundador do ChefsClub. Fui eu mesmo que fiz este post e pedi para nosso time replicar. O objetivo principal do post era gerar interesse pela vaga, mas de uma forma sincera. Por isso começamos por tudo que possam não gostar. É legal esclarecer: a gente não pede nem estimula que o estágio atrapalhe a faculdade. Vocês foram muito felizes nestes comentários. O intuito foi “assustar” um pouco porque muita gente que quer fazer estágio acaba se atrapalhando com a faculdade. Por conta própria, mas longe de ser porque nós obrigamos. Falo isso com maior tranquilidade pois nossos estagiários podem falar, não eu. Teve gente que começou como estagiário e teve promoções condicionadas ao término da graduação. Ah, e temos contrato de estágio direitinho, tudo como determina a lei. Sobre a remuneração, existem vários estágios que não são remunerados. Eu mesmo fui estagiário, em mais de uma oportunidade, sem remuneração. A gente prefere começar assim até pra ver se a pessoa vai se adaptar. Mas em vários casos começamos a remunera-los mais rápido do que o previsto, justamente porque vimos que a pessoa mandava bem e tinha tudo a ver com a gente. Na questão do aprendizado, é claro que nós damos suporte. No entanto, em startups normalmente estagiários tem mais autonomia e aprendem mais sozinhos. E, honestamente, acho isso uma vantagem. Aí é muito questão de perfil e o que busca neste momento da carreira. Mas, de qualquer forma, se tiverem alguma dúvida, crítica ou comentário de qualquer natureza, podem me mandar email: guilherme@chefsclub.com.br Aprendemos muito com críticas e já aprendi bastante com tudo o que vocês falaram aqui, realmente a mensagem foi exagerada em vários aspectos e ficou um aprendizado grande.
Abraços e sucesso a todos.
Eu (como uma boa Relações Públicas) não vou comentar a fala do CEO senão esse artigo só termina em 2018. Mas é na fala dele que nós encontramos o erro e eu bato o martelo dizendo que COMUNICAÇÃO É COISA SÉRIA.
“Fui eu mesmo que fiz este post e pedi para nosso time replicar.”
Prefiro acreditar que tudo não passou de uma (falta de) estratégia mal elaborada e que a ChefsClub é uma empresa que tá aí levando na cara todos os dias, como toda boa startup, aprendendo com os próprios erros e melhorando um pouco a cada dia.
Para os jovens a minha mensagem é bem mais curta:
Migxs, pode ter sinuca, ping-pong, toboágua e odaliscas te abanando e massageando os seus pés, nada disso vai segurar a barra de fazer algo que você não gosta ou trabalhar por algo que você não acredita. Trabalhar em um ambiente que te dá autonomia automaticamente te gera mais e maiores responsabilidades e por isso é preciso mais que uma sala de jogos pra dar certo. É preciso se sentir em casa não na hora de sentar no puff gostosão pra descansar com o seu chinelo havaianas, mas na hora de lavar a roupa suja, de quebrar o pau, de correr atrás, de trabalhar em equipe, de dividir as ideias, de dizer não, de aceitar um não, de compreender as metas. É preciso alinhamento de valores e cultura, é preciso pensar e agir por um mesmo propósito, é preciso, com todo o clichêzão possível, amor.