De fora pra dentro?
“Você é quietinha, né?!” Esse questionamento vinha até ela sempre em tom de elogio, com um sorriso depois. Vinha de um professor. De uma tia. Ou de um parente distante. Talvez essas pessoas se relacionassem melhor com crianças silenciosas. Barulho dá trabalho. Barulho incomoda. Esse raciocínio justificaria o tom agradável. Apesar de agradável, o sorriso depois desse “simples” comentário nunca lhe fora acolhedor. E foi assim, que desde criança aprendeu a não lidar bem com a sua introversão. “Você é quietinha, né?!” Conforme ia crescendo, a relação com essa pergunta retórica ia ficando cada vez mais desconfortável. Eu devo ser muito quieta mesmo. Concluía. Mesmo quando não concordava, aceitava. E cada vez que aceitava, entendia que o seu silêncio incomodava. E por se sentir um incômodo, não queria ser percebida. E pra não ser percebida, silenciava-se. E cada vez que silenciava-se, mais a questionavam. “Você é quietinha, né?”. “Sou”, respondeu, dessa vez. Com um tom forte, audível, cheia de certeza. Foi assim que se acostumou a ser quieta. Quieta, não. Calada. Com o tempo confundiu a repressão com eu não tenho nada a acrescentar, e foi assim que afastou a todos e ela mesmo daquilo que mais a diferenciava de qualquer um: sua habilidade para lidar com os sentimentos. Afinal, por não falar logo foi rotulada de novo. “Tadinha, ela é depressiva”. É, por não falar também era doloroso sentir. Existia, então, um abismo: entre sua essência e o que os outros enxergavam. Ainda bem que decidiu não olhá-lo por muito tempo. Logo tratou de descobrir o que estava escondido por camadas e camadas de julgamentos, no fundo da sua alma. Foi depois de adulta que aprendeu falar. Quando é necessário. Quando seu posicionamento é indispensável. Sobretudo, quando quer. Foi depois de adulta que se sentiu confortável com a sua introversão. E entendeu o quanto ela é necessária para escutar melhor, para se concentrar naquilo que importa e para pensar com tranquilidade. Vez ou outra ainda escuta: “você é quietinha, né?”. Discorda, mas como dá trabalho justificar todo o caminho, apenas sorri e responde em pensamento. “Não só, mas também. Ainda bem!”
