Reencontro

amanda
amanda
Aug 27, 2017 · 5 min read

Estamos sentadas no sofá – eu, minha mãe, minha tia. Existe uma pilha de gibis cujas histórias já cansei de ler e reler na mesa, e passa qualquer coisa na televisão, mas eu não presto atenção em nada disso. Um caderno aberto repousa diante de mim: noventa e seis páginas em branco, todas pautadas.

Peço uma caneta e rabisco. Ainda não sei articular palavras. Ainda não sei o que eu quero escrever, nem como se escreve o não saber, então só rabisco. Formas tortas que lembram palavras compridas, com pequenos espaços entre elas, ondulações que imitam letras que ainda não sei diferenciar. Para cima é um “t”, quem sabe um “l”; para baixo, “g” ou“q”. Minha tia olha. Minha mãe também. A voz da TV e da caneta riscando a página é tudo.

Em algum momento, alguém – não lembro qual delas – pergunta se eu tenho vontade de escrever. Digo que sim. “Escreva, então”, dizem. Eu continuo rabiscando. “Estou escrevendo”, respondo.

Foi assim até finalmente descobrir o que eu queria dizer.


Eu comecei a escrever por mim mesma. Durante muito tempo – durante a maior parte do tempo –, escrevi porque não soube fazer nada além disso. Não soube articular palavras. Não soube criar imagens. Não soube acompanhar ritmos. Tudo o que eu conhecia, em uma época que eu mal sabia o que era ser de fato uma leitora dedicada (ainda não sei) ou uma escritora fiel ao meu trabalho (ainda não sou – talvez nunca seja), eram folhas de fichário arrancadas cheias de sentimentos que só saíam daquela forma. Escrevendo. Falando comigo mesma.

Mesmo quando existia público – em blogs que eu não divulgava, em sites de fanfics, em janelas do MSN com amigas perguntando se eu tinha terminado alguma cena, em redações que renderam conversas depois da aula –, mesmo quando alguém além de mim sabia daquelas palavras, era sempre a sensação de ser só eu dividida em duas: uma de carne e osso, outra de celulose e tinta azul.


Mantive um diário por quatro anos – dos catorze aos dezessete –, e todos os textos que existem são exemplos perfeitos da salvação que a escrita me proporcionou. São memórias tristíssimas, surtos de pânico, aquela vez que pensei em fazer algo que felizmente não fiz, todos – todos – os corações partidos, letras de música, recortes estranhos de tempos e espaços. Mas também: fotos, bienais, cenas que eu não queria perder, viagens, textos que encontrei por aí. Tudo aquilo sou eu: caligrafia torta, páginas borradas, desenhos esporádicos, marcas de lágrimas, uma flor morta, aquela moeda que supostamente traria sorte. Tudo escrito. Frágil e inflamável e feito à mão.

E então um dia eu não mantive mais. Foi em algum lugar entre os dezessete e os dezoito anos, quando a faculdade surgiu, e não aconteceu do dia para a noite, mas se tornou cada vez menos constante, até deixar de fazer parte do material que eu sempre levava na bolsa, até sair da minha mesa de cabeceira, até ficar enterrado sob outros livros e textos em folhas soltas. De quando em quando, registrava um problema ou uma alegria. “Briguei com meus pais. De novo.”, ou “As coisas com Fulano deram certo.”, ou “Preciso sair de casa – rápido.”, etc. Nunca mais páginas e páginas de angústias e sentimentos. Nunca mais dores no pulso, canetas acabando, dormir em cima do caderno aberto. Mas ainda uma descarga. Ainda eu, de alguma forma, procurando conforto em uma atitude espontânea, minha válvula de escape nem-tão-secreta. Ainda as duas metades de mim tentando se juntar em uma só.


Começar a escrever não foi fácil, mas certamente não foi difícil. O mundo inteiro é um tema quando se precisa falar algo. E eu precisava falar muito, o tempo todo, sobre cada um dos sentimentos insuportavelmente novos e interessantes que apareciam no meu caminho. Mesmo quando faltava o substantivo certo, ou quando a realidade era pesada e eu não conseguia transpor aquilo tudo de mim para a folha. Eu não sabia da missa a metade. Eu não fazia ideia do que era realmente não ter palavras. Então eu usava todas.

Hoje é comum não saber o que dizer. Porque tudo é uma bagunça, porque o mundo é horrível, porque a consciência que adquiri ao longo dos anos me calou com uma força inimaginável. Qualquer um perde a voz no ano de 2017 – e já há alguns anos. Qualquer um perde a voz no meio de tanto caos. Então eu não me considero especial por estar muda, por ter abandonado teclas de computador e papéis soltos, por não saber o que é virar a madrugada pensando em uma cena específica. Eu não tenho o que dizer. Continuar escrevendo não foi (é) fácil – pelo contrário. Continuar escrevendo, depois de tudo isso (o início da vida adulta, o Temer), é um atravessar muros e quebrar janelas que me deixa com hematomas doloridos. É difícil.


Eu parei de escrever por mim mesma. Não sei em que momento. E não foi (não é) (não poderia ser) definitivo, ou um corte brusco na minha vida, ou um grande acontecimento; a escrita veio e foi embora com a mesma naturalidade. Só que, porque ela surgiu ocupando um espaço, preenchendo algo que faltava, ela foi embora deixando a sensação desconfortável de um imenso vazio que eu não soube como preencher. Tentei aquarela. Tentei um ukulele. Tentei meditação. Mas nada disso sou eu.

Talvez seja injusto argumentar que, por um tempo, escrever foi a fonte de alguns problemas, e essa reviravolta – esse momento em que o meu quarto do pânico metafórico virou um espaço onde eu não me senti segura – foi o motivo que faltava para que eu parasse completamente. Aquilo (isto) não podia ser uma fonte de ansiedade, não podia ser ruim, não podia ser a razão pela qual eu tinha que escrever. Eu não podia estar sempre presa nesse espiral de escrever sobre a incapacidade de escrever por precisar escrever. Então eu parei – e aí não sobrou nada.

Não foi difícil parar. Foi difícil lidar com o silêncio, e não encontrar nada que valesse a pena ser lido quando alguém me perguntava sobre materiais novos, e não ter um portfólio quando precisei de um, e ver todos aqueles projetos abandonados acumulando em um canto da mesa. Ainda é. Mas não foi difícil parar. É difícil continuar parada. Porque me sufoca esse querer falar sem saber como, esse coçar na ponta dos dedos que nunca passa, a falta inegável da metade de mim que não existe no mundo real – que é folha e tinta e pixels.


Escrevi minha primeira história aos dez anos. Há algumas semanas, fiz vinte. Não é pouco tempo. Não são poucas palavras. Já não me lembro da maior parte delas, mas isso não significa que elas não existiram. Que elas não construíram essa casa de pele e osso onde eu moro. Que elas não fizeram esse calo no meu dedo médio. Que elas não flutuam em volta de mim feito poeira.

Eu sou o que eu escrevo – e, se não escrevo, não sou, não existo. Descartes há de perdoar a insuficiência do ato de pensar como prova única e incontestável da minha materialidade. Essa certeza não surgiu aos poucos, como talvez devam vir as certezas. Ela nem mesmo tem forma – é, como as palavras eram no começo, rabisco. E embora eu não saiba ao certo que como moldá-la, como transformá-la, a estou transferindo de um plano para o outro, juntando as metades novamente, depois de tanto tempo. “Escreva”, eu disse para mim mesma.

Estou escrevendo.

)

    amanda

    Written by

    amanda

    lendo & dando pitaco

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade