Ecos


Por não querer pensar, eu penso, de maneira involuntária. E logo me arrependo de ter começado a raciocinar sobre todas essas coisas que aparentemente não fazem sentido nenhum. Coisas que eu me forço a querer acreditar (e aceitar) que têm algum significado. Mesmo que não faça sentido. Para os outros. Para mim. Às vezes a melhor saída é não enxergar com a razão, mas, ao mesmo tempo, talvez seja mais indicado buscar esse equilíbrio com o não sentir. Ou o não ser? Eu era. Eu estava. Estou e sou. A própria medida emocionalmente incorreta e, por que não, mutável? Afundo-me cada vez mais em mim mesma, sem saber até onde posso chegar, seja para o bem ou para o mal. Pertenço ao que não conheço, ainda que eu tente afirmar o que, de fato, sou. Eu sou. Não sei. E se eu não sei, quem mais poderia saber e decidir?

Sinto. Ouço o que me convém, e o resto fica para depois. Com convulsa antecedência e um desespero bem contido, compreendo que não pertenço, afinal, nem a mim mesma. Sofro pela sensibilidade aflorada, que me repele e me aproxima, e nego a me entregar e tentar entender o que está acontecendo, afastando todos os pensamentos prematuros que se lançam em minha mente. E então deixo tudo assim, aceito a condição que me é imposta. Por simplesmente não querer desembaraçar esses pensamentos e sensações que nascem para confundir. Ou para consertar? São pequenos fragmentos de realidade que me atacam com uma força desumana; arrastam, desconstroem e remontam tudo aquilo que um dia eu havia tomado como verdade. E qual era mesmo a verdade que eu queria?

Já me olhei fora de mim e já me observei por dentro. Já me vi de longe, andando afastada e também me notei de perto, muito perto, caminhando para uma consciência que se diz ser minha. E ainda assim não me reconheço. Apenas peço que dure mais, essa consciência de certeza magra e fina, que quase desaparece por entre meus dedos. Escorre e se dissipa, deixando apenas dúvidas em seu lugar. Mas pedir a quem? Eu não confio em mim, me engano, me enrosco e trapaceio. Depois me engano de novo dizendo que está tudo bem. Ainda que não esteja, sei que vai ficar. Pois me vi ao longe, caminhando, sendo grande, fluída e leve. Aguento a espera, o que é e o que poderia ter sido, não vai mais me incomodar. Amanhã posso tentar resolver o que não ficou certo no hoje, sei que vai dar tempo porque sempre é tempo, assim como outros, ele também pede respeito. Convivo com ele. De alguma maneira, é algo que faz parte de mim, além de mim. E então eu deslizo e caio em pensamentos, de novo e sempre.